Quando nos tornamos adulto? Você já parou para pensar nisso?
Há quem diga que se tornar adulto é pagar boletos. Outros dizem que isso é ser cringe.
Uma coisa é certa: ser adulto não tem a ver necessariamente com a idade. Há pessoas com mais de 40 que parecem ainda viver como adolescentes. Por outro lado, há adolescentes que parecem ser adultos.
Penso que o processo de amadurecimento passa por experiências que nos fazem entender melhor quem somos e quais são os nossos papéis.
Ser adulto é encarar as perdas
O escritor Michel Houellebecq começa o livro Plataforma da seguinte maneira:
“Meu pai morreu há um ano. Não acredito na teoria de que a gente só se torna realmente adulto com a morte dos pais; acho que jamais nos tornamos realmente adultos.”
A morte dos pais é um corte de ligação brutal e certamente um marco para qualquer pessoa. No entanto, pensar que jamais nos tornamos realmente adultos é pessimista.
As perdas que experimentamos ao longo da vida certamente são um aspecto que contribui para nosso amadurecimento e crescimento. Encarar a morte de alguém que amamos, como os nossos pais, por exemplo, contribui com a nossa jornada da vida adulta.
Talvez tenha a ver com aquela ideia de que para ganhar precisamos perder. Nesse caso, as pessoas que perdemos nos forçam, se nos permitirmos, a compreender melhor alguns processos da vida e sermos mais tolerantes com os outros.
No caso da perda dos pais, um aspecto importante é forçamos a ser responsável por nós mesmos.
A responsabilidade do cuidado
A perda é fundamental, mas não há amadurecimento possível sem que se assuma a responsabilidade por esse crescimento. Não há como cuidarmos bem do outro, sem se comprometer com esse cuidado.
A questão de cuidar do outro é uma experiência de crescimento. Talvez por isso, muitas pessoas digam que alguém só é adulto quando se torna pai ou mãe.
E quanto as pessoas que não tem filhos? Elas nunca se tornarão adultos? Ter um filho não qualifica ninguém como um adulto, mas quem vivencia essa experiência cresce.
Acredito que aqui é importante observar a experiência desse cuidado.
Talvez, uma ideia mais apropriada seria pensar que nos tornamos adultos quando assumimos o papel de cuidar de alguém, seja uma criança ou não.
Ao assumir a responsabilidade pelo outro, um mundo se abre. Uma jornada de crescimento se inicia e vivenciamos um crescimento no processo.
De uma maneira, crescer é que nos faz adulto.
Na vivência de cuidado do outro, aprendemos. Percebemos que o mundo não gira em torno da gente. Entendemos que existem prioridades na vida e alimentar o nosso ego não é uma delas.
Sem ter uma resposta a pergunta inicial, prefiro entender o tornar adulto como um processo de crescimento. O cuidar do outro, assim como enfrentar as perdas da vida fazem parte dessa jornada.
Tanto na perda quanto no cuidado, aprendemos a ser responsáveis pela nossa vida e assumimos um compromisso com as decisões que tomamos. Um compromisso conosco.
Nessa perspectiva, há pessoas que se tornam adultas, mesmo que não tenham filhos e que não sofram a dor de perder os pais. Elas crescem com as suas próprias decisões, assumem a responsabilidade de suas vidas e pagam boletos.