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Living on one dollar – Um pouco da miséria no mundo

Você já se imaginou vivendo com menos de um dólar por dia? Saiba que há milhões de pessoas que vivem nessa realidade. Living on one dollar é um documentário sobre o cotidiano de algumas dessas pessoas.

O critério para considerar pobres extremos e pobres moderado é feito com base em métrica que estabelece o ganho diário. Quem ganha até um dólar por dia esta na categoria de pobreza extrema. Para aqueles que ganham entre um e dois dólares são classificados como pobre moderado.

No Brasil é considerado a linha de pobreza aqueles que vivem com uma renda familiar per capita de até R$ 230,00 por mês. Segundo os dados da FGV Social, em 2015 cerca de 11,2% dos brasileiros, em números absolutos, são de 22 milhões de pessoas vivem nessa realidade.

As estimativas para 2017 não são nem um pouco favoráveis. O último relatório divulgado pelo Banco Mundial mostra que o Brasil terá mais 3,6 milhões de novos pobres.

No mundo estima-se que mais de 1,1 bilhão de pessoas vivam em condições de miséria extrema. Além do fato de ganharem U$ 1 ou menos por dias, as pessoas que vivem nessas condições não tem recursos básicos, como água potável.

Uma pergunta que me ocorre é: como essas pessoas conseguem sobreviver?

Bem, essa também era a dúvida de dois jovens americanos. E para responder a essa pergunta eles decidiram fazer o documentário Living on one dollar.

Living on one dollar – A proposta do documentário

Living on One Dollar
Divulgação: Living on One Dollar

Chris e Zack são dois estudantes americanos que se perguntavam como as pessoas conseguiam viver com U$ dólar por dia. Porém, o objetivo não era entender com base em dados e artigos acadêmicos. Eles queria ver de perto a realidade dessas pessoas e sentir como era viver nessa realidade.

Os dois estudantes convenceram mais dois amigos para filmarem as entrevistas e fazerem um documentário a respeito. One dollar living mostra a experiência e a convivência que eles tiveram vivendo por oito semanas em Peña, na Guatemala, com um dólar por dia cada.

A produção é simples, mas compensa com uma boa edição. E, consegue fazer com que o telespectador se coloque no lugar de quem esta vivendo nessas condições. Apresenta a realidade dos jovens, ao longo dessas semanas e um pouco da vidas das pessoas da comunidade de Peña.

Vamos conhecendo algumas histórias dessas pessoas, e da força que elas tem. Dos seus sonhos, sonhos em mudar de vida, de estudar, de ter uma vida melhor.

Não há uma fotografia que embeleze a miséria e a pobreza. Se há alguma beleza no relato, essa beleza é das próprias pessoas e de suas vidas. Não espere encontrar uma estética da miséria, como muitos fotógrafos fazem. Não há nada de belo na situação em que elas vivem, mas há algo especial nessas histórias. Na força dessas pessoas, que mesmo nessas condições lutam e cultivam a esperança.

O documentário é curto e não traz muitos dados econômicos. Seria bem mais ilustrativo e informativo trazer esses números para entendermos a dimensão do problema. E também apresentar iniciativas que estão sendo feitas ao redor do mundo para minimizar ou resolver o problema da miséria.

Uma solução possível

A respeito de soluções, há apenas uma menção sobre iniciativas em inserir dinheiro em comunidades pequenas. Sem citar fontes, o filme informa que tais soluções são paliativas e não resolve o problema em si. Aliás, não parece haver uma solução, uma única solução.

O caminho aponta para uma solução sustentável que permitia a comunidade crescer em conjunto. Talvez, em casos como o de Peña, inserir dinheiro em uma comunidade local para que eles mesmo produzam possa trazer resultado a longo prazo.

Esse é dos caminhos encontrados para que isso seja possível e apresentados em Living on one dollar: o acesso a crédito. Mas não em um banco tradicional, no qual é exigido uma série de documentos. Muitos desses documentos nem são possíveis. Como alguém poderá comprovar rendar sem ter uma renda formal ou como apresentar uma conta de luz ou água se não tem esses serviços em suas casas.

Living on One Dollar - Rosa
Rosa – Com um empréstimo de $200, pode iniciar seu próprio negócio e voltar a estudar

A alternativa são os bancos de microcréditos, nos quais as exigências são menores e permitem o acesso ao crédito. E um valor de empréstimo de U$ 200,00 pode gerar a criação de um negócio e o aumento de renda para essas pessoas. É uma oportunidade para que se possa gerar rendar a partir do empréstimo e melhorar suas vidas.

A pobreza é o problema e não os pobres

Muitas ideias envolvendo a pobreza se propagam ao pensar que o pobre não quer trabalhar ou que não tem força de vontade. Ou que se quisesse mudar de vida poderia. A realidade de muitas pessoas é bem diferente. Embora queiram mudar de vida, simplesmente não tem acesso as oportunidades que deveriam ter.

No Brasil, por exemplo, o polêmico Bolsa Família que tinha ajudado a diminuir o índice de pobreza até 2010. Mesmo sendo visto como um programa assistencialista vinha melhorando nossos números.

Ao deparar com a realidade de miséria de milhões de brasileiros, eu não tenho o sentimento de injustiça pela ajuda que essas pessoas ganham do governo. É uma maneira paliativa, que não resolve a situação, mas colabora para que isso seja possível. É um longo caminho a ser construído.

Se por um lado, Living on one dollar peca em termos de pesquisa prévia, ele tem o mérito de nos apresentar uma experimentação etnográfica. E faz um bom trabalho, em nos levar a conhecer um pouco da realidade de pessoas que vivem com tão pouco.

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Carmen Herrera: The 100 Years Show

O documentário sobre Carmen Herrera apresenta um perfil dessa pioneira artista cubana americana que só fora descoberta tardiamente pela crítica.

Carmen Herrera documentário
DIvulgação: The 100 Years Show

Quando escrevi sobre o documentário do minimalismo não entrei em detalhes sobre a origem do movimento ou de onde veio a ideia. O minimalismo como um estilo de vida ou de valores, não surgiu como um pensamento filosófico, mas sim estético, mais especificamente nas artes plásticas.

As primeiras formas de expressão minimalista surgiram em meados da década de 60 nos EUA. Nas artes plásticas, os principais nomes citados são o Sol LeWitt, Frank Stella, Donald Judd e Robert Smithson.

O filme The 100 Year Show não trata de nenhum desses nomes, mas trata da arte minimalista ou melhor de uma artista minimalista. Uma artista que vivenciou todos esses anos, trabalhando e descobrindo novas formas de expressão, talvez até influenciando outros artista, mas que não é citada nas origens do movimento. É dessa laguna que se faz o documentário sobre Carmen Herrera.

A razão disso é que ela ainda não havia sido descoberta.

O documentário sobre Carmen Herrera apresenta a recente descoberta dessa artista, que na época das filmagens, comemorava os 100 anos de idade (hoje ela esta com 102). Embora tenha se dedicado ao trabalho com artes por toda a sua vida, Carmen Herrera só foi descoberta aos 81 anos, em 2004.

Como Carmen Herrera foi descoberta?

E aconteceu meio que por acaso. Tony Bechara, pintor e amigo de Carmen, estava em um jantar e conversava com Frederico Sève (dono The Latin Collector Gallery), em Manhatan.

Em um da conversa, Frederico compatilhava um problema que enfrentava. Ele estava prestes a lançar uma exibição com três artistas mulheres, latinas e que trabalhassem com formas geométricas. O problema era que uma das artistas havia cancelado na última hora.

Ao ouvir Frederico, Tony foi enfático “eu conheço exatamente a artista que você precisa”. Dessa maneira, os quadros de Carmen foram enviados para avaliação. Quando os viu, Frederico ficou intrigado. Algo especial lhe havia despertado o interesse. Tinha algo maravilhoso ali.

O mundo mudara de uma hora para outra na vida de Carmen. Vendeu o primeiro quadro e o tardio reconhecimento veio afinal.

Uma das razões pela tão longa espera para o reconhecimento é o fato de Carmen ser mulher. O mundo das artes era bem mais machista e preconceituoso quando ela começou.

Carmen Herrera relembra uma vez em que a dona de uma galeria de arte recusara exibir os seus quadros justamente por ela ser mulher. A arte não era um lugar para mulheres. A dominância machista era demasiada, o que impedia que mesmo as mulheres se ajudassem.

Se há dúvidas sobre isso, basta comparar o trabalho de Carmen Herrera com artistas homens do mesmo período. A questão que paira é como ela não tinha sido descoberta antes.

A história de Carmen Herrera é fascinante, mas o mérito de dar vida para ela por meio das imagens é da diretora Alison Klayman.

Alison consegue trazer para a tela histórias do passado, seu casamento, sua descoberta, seu cotidiano em apenas 29 minutos. É um documentário tão minimalista, quanto as obras de Carmen Herrera, onde menos é mais.

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Algumas palavras sobre Descendentes 2

Descendentes 2 segue a sequência do primeiro filme. Mel, filha de Malévola e seus amigos tentam se encaixar em um mundo perfeito, bem diferente de onde vieram.

 

Ao longo dos anos a Disney criou muitos vilões e nos recentes anos tem dado uma perspectiva diferente para eles, como o caso de Malévola e a rainha do gelo. A ideia geral é de que não somos determinados por nossos pais e podemos fazer nossas próprias escolhas.

Mesmo não o primeiro filme tendo muitas falhas, a sequência já esperado. Ao que parece, se trata de uma franquia do canal da Disney a longo prazo. Assim como primeiro, o segundo filme peca em muitas coisas.

É cheio de clichês e de muitos estereótipos e por que não dizer uma ideologia econômica segregada. E por tratar-se de um filme que tem em seu público alvo crianças e adolescentes, o cuidado deveria ser maior para esses detalhes.

Os dois mundos de Descendentes 2

Em Descendentes 2, há dois mundos principais, bem marcados pela fotografia do filme.

Descendentes 2 - O mundo perfeito
Disney Channel/David Bukach

O primeiro deles é o dos príncipes, princesas e todos os personagens bonzinhos dos contos de fadas. No outro é o da ilha, uma espécie de prisão, onde todos os personagens malvados foram condenados a ficar como punição pela sua maldade.

O mundo dos príncipes e princesas é colorido com cores claras, com muita riqueza, onde todos são tratados com respeito. Em contraste, o ambiente da ilha as cores são escuras, a miséria é presente e a sujeira é visível para demonstrar o lugar desagradável onde as pessoas más vivem.

Acontece que os filhos dos vilões também vivem nessa ilha, afastados de educação, da segurança. A ilha é o local onde há o roubo e violência, onde criminosos e pobres vivem sem que haja qualquer distinção entre um e o outro. Se transportarmos a imagem para o mundo real, é como se a favela fosse a ilha e o condomínio de luxo o lugar encantado.

Outro ponto desgostoso do filme é perceber que a única personagem negra de destaque é vilã. Aliás, tirando alguns figurantes, não que não há outra personagem negra no filme.

É triste ver um filme para crianças onde ainda reside a ideia do pobre ser vilão e o rico o bonzinho. Os mocinhos dos filmes vieram desse segundo mundo e tiveram uma chance. E agora, não fazem mais parte do mundo de pobreza, miséria e maldade.

A figura feminina em Descendentes 2

Se por um lado, a questão de negros e pobres é plástica e até racista, Descentes tem o mérito de trazer como protagonistas e antagonistas personagens femininas. Tanto do lado de heróis e de vilões, as meninas é que representam e contam praticamente toda a história. Os meninos no filme tem mais um papel de mentor ou coadjuvantes. Mesmo quando o príncipe vai salvar a princesa, a história é invertida.

Um destaque para a força da figura feminina na trama é a personagem de Dianne Doan, Lonnie, a filha de Mulan. Em determinada cena, ela luta contra a equipe de esgrima da escola, mostrando competência e habilidade, mas não é aceita por ser menina. Ela levanta a bandeira de que o critério não deveria ser pelo gênero, mas pela sua competência. Essa será a verdadeira luta Lonnie no decorrer da trama e no final dependerá de um homem para dizer se ela pode ou não participar da equipe.

descendentes 2_o_mundo_dos_vilões

Há muito para ser tratado sobre esse assunto, mas a mensagem principal é que meninas podem fazer tudo que meninos fazem, desde que os meninos permitam. Não libertação ou mudança alguma em uma mensagem dessas.

Mesmo com papéis menores, a figura masculina ainda é dominante na resolução de problemas, mesmo nos papéis menores. É justamente o que acontece com Lonnie: ela precisa da autorização de um homem para entrar na equipe de esgrima, independente da sua competência e talento.

É um filme feito com o foco no público feminino, mas sem uma inovação nos papéis femininos. As personagens são rasas, plásticas e poderiam ser muito mais trabalhadas, mas ninguém espera uma obra prima, então mesmo com personagens rasas a trama e contada.

Figurinos, coreografia e atuações

O trabalho artístico dos figurinos e dos maquiadores cumpre o seu papel. Mas em alguns momentos fiquem com a impressão de que orçamento do filme não era alto porque poderiam ter um acabamento melhor. Talvez apenas a impressão de que algumas cenas estavam em um ambiente artificial, ora realista ora fantasioso. Embora essa mistura não seja harmoniosa, ela não compromete o filme.

Há no entanto algo que merece destaque em Descendentes 2: as coreografias. Os coreógrafos souberam explorar o talento e a força do elenco. Sofia Carson, a Evie, ganha mais força nessa sequência. Desempenha bem as cenas em que canta, mas a interpretação esta melhor do que na primeira versão.

Um pouco mais sobre os atores

Um ator que gostei de ver em cena é Cameron Boyce, Carlos. Um ator que tem crescido a cada novo com a Disney, seja com ator ou como dançarino. Nas cenas de dança, ele se destaca. Mas arrisco a dizer que Cameron teria muito mais liberdade para trabalhar se estivesse em um palco atuando. Gostaria muito de ver isso.

Dove Cameron, Mal, a protagonista é conhecida do público pelo seriado Liv and Maddie, onde interpreta duas irmãs gêmeas. O trabalho no seriado é melhor do que no filme. Não é uma atuação ruim, mas poderia ser melhor. Parece ser mais um problema de direção do que de atuação. A atriz corre o risco de ficar marcada por uma personagem tão superficial.

Outras atuações que merecem destaque em Descendentes 2 são:

  • China Anne McClain, a Uma, filha de Ursula (a vilã da pequena sereia). China cresce, mas não é uma vilã de verdade. É mais uma força da injustiça e a todo momento espera-se fazer parte de um outro mundo que não aquele da ilha isolada.
  • Thomas Doherty, que interpreta Harry Hook, o filho do capitão gancho, talvez ele devesse ser o verdadeiro vilão da história porque é o mais parece estar a vontade em seguir os passos de seu pai.
  • Não poderia deixar de mencionar a atuação de Dylan Playfair, Gil. É o tipo de vilão atrapalhado que nos garante algumas risadas.

De um modo geral, as falhas não de atuação ou falta de talento dos atores, vejo mais como uma falta de direção apropriada que não souberam ou não puderam trabalhar melhor. Muitos seriados e filmes da Disney são uma espécie de laboratório para desenvolverem talentos.E esse parece ser o caso.

Enfim…

A história tem muitos problemas, mas garante também diversão e entretimento. E esse parece ser o objetivo principal do filme. É um filme para TV que já encantou milhares de pessoas nos Estados Unidos e suas falhas não comprometem.

Porém o seu conteúdo é que assusta. Trabalhar como uma estética de segregação em um momento em que a extrema direita ganha tanta força ao redor do mundo é um ato de irresponsabilidade.

A fantasia é a grande força da marca Disney e não entendo por que não criar um mundo de fantasia, no qual meninos e meninas, brancos e negros, pobres e ricos fossem tratados com mesmo respeito em Descendentes 2. A final é fantasia e pelo menos em sonhos, poderíamos imaginar um mundo mais justo.

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American Anarchist

Como você se sentiria se fosse responsável pela morte de milhares de pessoas? Como você se sentiria se escrevesse um livro sobre matar? American Anarchist (Anarquista Americano) é documentário que conta a história do autor de um dos mais polêmicos livros já publicados: a cozinha do anarquista.

Em 1971, o jovem de William Powell escreveu o livro The Anarchist Cookbook (A cozinha do anarquista). O conteúdo do livro faz um descrição sobre drogas, armas letais, sabotagem e, o que o fez mais famoso, como fazer bombas.

A obra tem sido associado com uma quantidade de atentados com bombas e armas de fogo no EUA e no mundo desde sua publicação.

Embora, tenha no nome a palavra anarquista, o livro não trata de um manual anarquista ou com tal pensamento. Muitos grupos anarquistas discordam do conteúdo do livro e o criticam por não se tratar de um livro escrito por um anarquista ou conter o pensamento filosófico do anarquismo. O mesmo vale dizer do documentário.

Documentário American Anarchist

American Anarchist
Divulgação: capa do documentário

O documentário American Anarchist (O Anarquista Americano) traz o autor do livro, décadas depois de te-lo escrito. A sinopse do filme diz-se traçar um perfil do autor do livro, mas é mais justo dizer que se trata de apresentar ao público a visão que o William tem sobre a publicação do seu livro.

Uma das justificativas que o levou a escrever o livro foi disseminar a informação em um momento da história dos EUA em que o governo estava abusando de violência com os cidadãos. Outra motivação vem de um artigo publicado no The Guardian:

Minha motivação naquele tempo era simples: eu estava sendo perseguido pelo exército americano, o qual parecia de uma só vez determinado a enviar-me para lutar, e possivelmente morrer, no Vietnã (William Powell – tradução livre).

No documentário, esse lado é mais explorado por meio das entrevistas que buscam responder como o autor se sente hoje, com o impacto que o seu livro teve ao redor do mundo. E sua responsabilidade pela obra.

Ao longo dos 80 minutos, nos deparamos com o atual trabalho de William Powell, percorremos parte de sua infância e e seguimos a busca em entender como ele se sente pela publicação de um livro sobre a fabricação de bombas.

Embora, na sinopse, diga que William Powell tem vivido com arrependimento pela publicação da obra, não me pareceu que houvesse remorço pela publicação, pelas mortes sim, mas não pela publicação.

O Anarquista Americano parece ser uma piada ou ironia, pois nada há de anarquismo na fala de William. Talvez a única referência seja a rebeldia de um adolescente e sonho de que poderia mudar o mundo.

No final, a sinopse parece estar certa mesmo. É mais um perfil sobre o autor do livro do que um documentário sério sobre o anarquismo ou uma investigação sobre a influência do livros.

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Food Choices: um documentário sobre alimentação saudável

É possível ter uma alimentação saudável sem comer carne? É possível se alimentar bem com pouco dinheiro? Uma dieta vegana é mais saudável? Vale a pena comprar produtos não orgânicos? Qual é o impacto do consumo de carne para o nosso meio ambiente?

Essas são algumas perguntas feitas e respondidas pelo documentário Food Choices. O filme faz uma jornada por meio de entrevistas a pesquisadores, médicos e especialistas para responde-las. Tendo como o objetivo principal trazer informações sobre uma alimentação saudável.

Food Choices - Alimentação Saudável
Divulgação: Food Choices

A questão da carne

No início, pode parecer mais um daqueles documentários para tentar convence-lo a não comer carne, mas não se engane. Não seria justo rotula-lo dessa maneira, pois o filme vai além da discussão de comer carne ou não.

Food Choices é sobre comida de uma maneira mais ampla e profunda. É sobre como nos relacionamos com ela. É sobre ter informação sobre o que comemos.

A opinião de não comer carne é explicita e defendida por muitos, porém os argumentos são em busca de uma alimentação mais saudável. Food Choices não condena quem come carne e o objetivo não é esse. Há problemas no alto consumo de carnes e a mensagem é a de que com informação é possível fazer melhores escolhas.

Não espere ver quantidades e quantidades de cenas sobre matança de animais para tentar lhe sensibilizar. Há algumas, mas são poucas. É mais um convite para refletirmos sobre a matança desenfreada de animais para o nosso consumo. Elas são apresentadas com muita cautela, pois o objetivo não é lhe chocar com cenas. Mas sim, trazer informações sobre as consequências de ter um enorme bife no prato. E os impactos que isso pode causar vão além da sua saúde.

Food Choices: informação para uma alimentação saudável

Para promover melhores escolhas sobre alimentação saudável, o documentário busca reunir o maior número de informações sobre comida em diferentes aspectos. São abordados as questões como saúde, o impacto econômico. As consequências de um determinado alimento para a sociedade, para o meio ambiente e as questões políticas envolvendo a alimentação.

Assuntos como o consumo de vitaminas em comprimidos e omega 3 também são trazidos. Esses assuntos são tratados por especialistas e nos dão uma visão mais ampla. E isso, nos permite ver e questionar o que esta envolvido em tanta informação ao redor de uma vida saudável.

O ponto central de Food Choices é o que sabemos sobre comida e como podemos nos alimentar melhor com mais informação. Um dos médicos afirma que uma alimentação vegana não é necessariamente mais saudável. Afinal de contas você pode comer batata fritas e coca-cola todos os dias e isso não lhe fará mais saudável.

A brincadeira é feita para mostrar a importância da informação sobre as escolhas que fazemos quando nos alimentamos e como isso impacta a nós e ao mundo.

Informação técnica e econômica

Além de informação sobre alimentos e nutrição, o documentário também apresenta números de outras esferas. São mostrados dados sobre os interesses econômicos das industrias farmacêuticas. E como há um lobby para promover estudos acadêmicos sem o necessário teor científico.

Outro tipo de análise econômica que chama a atenção em Food Choices é o da logística. Há uma comparativo relação ao custo de produção e logística, envolvendo também os custos para o meio ambiente.

É interessante observar esses dados porque quando falamos em escala industrial, os custos da terra, da poluição do ar e dos rios são negligenciados. As empresas não levam esses custos em consideração em seus relatórios de desempenho e quem paga por isso somos todos nós.

O documentário é uma fonte de informações, mesmo que você ame o churrasco no final de semana e não imagina tirar o bacon do cardápio. Não se trata de não comer carne, mas sobre uma comida de qualidade, queira você emagrecer ou apenas ter uma vida mais saudável.

The Food Choices é um raio-x em todo o sistema que envolve a nossa alimentação, desde o campo até a mesa de nossas casas. E faz isso mostrando todas as etapas: plantação, industria, logística, marketing, política, estudos, supermercados e as escolhas individuais.

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The True Cost – Roupas produzidas com sangue

The true cost (O Verdadeiro Custo) é um convite a reflexão sobre a relação entre exploração de trabalhadores das fábricas de roupa e o custo que pagamos por cada peça.

Ao assistir algumas cenas do documentário sobre a industria da moda The true cost fui pego pela lembrança de uma visita ao campo de concentração em Auschvitz. As condições dos dormitórios, banheiros em que os prisioneiros ficavam eram parecidas com locais onde animais habitam.

É difícil imaginar que seres humanos pudessem ter sobrevivido naquelas condições. Algo parecido acontece com a maneira com alguns trabalhadores da industria da moda.

Como os trabalhadores são tratados?

True Cost - Trabalhadoras
Divulgação: The True Cost

“Não comprem essas roupas, pois elas são feitas com sangue”. Frase de uma trabalhadora.

Bangladesh parece ser o pior cenário. Em abril de 2014, o desabamento do edifício conhecido com Rana Plaza teve mais de 1000 mortes registradas. Nesse local operavam fábricas de roupas.

Um acidente que pode acontecer em qualquer lugar do planeta, exceto pelo fato de que os donos foram notificados sobre os problemas da construção e do risco de desabamento. Mesmo cientes do que poderia acontecer, decidiram continuar com a produção, pois precisavam respeitar os prazos.

Em um outro momento, uma trabalhadora de uma das fábricas, também em Bangladesh, reuniu solicitações para melhoria das condições de trabalho. Após apresentar as informações aos supervisores, ela e outras colegas ficaram em portas fechadas e foram espancadas em resposta às solicitações.

Na Cambodia, trabalhadores foram surrados e mortos por exigirem melhores condições de trabalho. Um deles foi espancado até a porte pela polícia.

Estas são algumas das histórias apresentadas pelo documentário The True Cost. Um documentário que apresenta em que condições roupas de grandes marcas são fabricadas e quais os impactos que isso tem para a vida dessas comunidades e para o meio ambiente.

Impacto na agricultura

The True Cost - Os fazendeiros
Divulgação: The True Cost

O problema não se restringe aos trabalhadores de fábricas, mas também aos agricultores que produzem o algodão.

Há alguns anos, na Índia, uma empresa reformulou geneticamente uma semente do algodão, pois dessa maneira o pesticida conseguiria tratar adequadamente das pragas que atacam as plantações de algodão. Os fazendeiros adquiriram as novas sementes e também os novos pesticidas para matar a praga.

A nova semente não resolveu o problema, porém, agora, os fazendeiros tinham um agravante: uma divida com a empresa fruto do empréstimo para compra da nova semente e do pesticida.

Depois de um tempo, a mesma empresa cobrava dos fazendeiros as dívidas acumuladas pelas sementes e pelo pesticidas vendidos. Muitos fazendeiros diante de uma situação, na qual não tinham saída, ia até o local onde guardavam os pesticidas e ingeriam um copo do pesticida. São muitos fazendeiros, estima-se que mais de 260 mil tenham cometido suicídio na Índia usando este método.

É difícil acreditar que tudo isso esteja envolvido no mundo da moda, mas documentário é tão bem elaborado e informativo com dados, fontes e entrevistas que convence.

Quem ganha com isso?

The True Cost - Quem ganha
Divulgação: The True Cost

Quem vem ganhando muito dinheiro são grandes marcas que reduzem seus custos e aumentam suas margens de lucros. Essas empresas compra um comprar um jeans por U$ 0,20 e vender por U$ 20. O funcionário da fábrica que realmente trabalhou nessa pesa recebe um um pagamento mensal de U$ 10.

Uma dessas empresas é a H&M que fatura cerca 18 bilhões de dólares por ano. Será que com esse faturamento não seria possível fazer negócios mais justos com as fábricas locais? Não, o que impera é uma negociação agressiva para redução de custos. E qual fábrica quer perder um cliente? E qual governo quer perder uma empresa internacional com negócios e alimentando a economia. Afinal de contas, empregos são gerados.

O grande argumento de defesa para a exploração dessas fábricas é a geração de empregos e o investimento no país. A geração de emprego e o investimento não compensam a longo prazo. É como se vendêssemos água de um lago.

No início se paga um bom preço, mas a medida que se a produção aumenta os preços de venda reduzem até que se reste lama e não há mais razão para negócio. A empresa de fora sai com o lucro da exploração, a comunidade fica com um buraco de lama onde havia um lago.

O que me pergunto é: em que lugar ou em que momento começamos a ver a exploração das pessoas e dos lugares como um bom negócio?

O documentário retrata a industria americana e por lá há ainda um agravante: a legislação americana protege essas empresas e as isenta de responsabilidade.

Considerações finais sobre The True Cost

A mensagem do documentário é trazer essa quantidade de informações sobre a industria da moda para nos conscientizar e deixar na nossas mãos a decisão de comprar roupas a baixo custo ou se questionar de onde elas vem.

Uma questão não abordada no documentário refere-se ao poder aquisitivo das pessoas. Nem todos podem se dar ao luxo de escolher onde comprar suas roupas, muitas as vezes a escolha se restringe: a comprar uma roupa de origem exploradora(baixo custo) ou não comprar. Levanto esse questionamento com base na realidade brasileira, onde muitos não tem condições de comprar roupas, quanto mais de escolher se essa marca usa trabalho escravo ou se explora a vida de milhares de trabalhadores.

Outra questão é se aqueles que podem escolher, estão mesmo interessados em saber de onde as roupas vem? Será que vão pensar duas vezes antes de compra-las? Será que vão se dar conta de quantas pessoas trabalham nessas condições ou usaram o argumento de que as pessoas aceitaram e escolheram trabalhar nessas fábricas.

Não sabemos a realidade da Índia, Bangladesh ou Cambodia, mas conhecemos a realidade brasileira. Será que é tão difícil para a gente imaginar como é feita essa escolha? Será que não conhecemos alguém que se submete a andar duas ou três horas para trabalhar em local por menos de um salário?

São questionamentos que não são abordados no documentário e talvez nem deveriam, pois a perspectiva é de que apenas Estados Unidos e Europa consomem esses produtos. Essa é a única crítica que faço em relação a esse trabalho, mas isso não compromete a obra, muito bem feita, conduzida, com um bom ritmo e uma informação riquíssima para todos.

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O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz

O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz (The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz) é um documentário, como o nome já diz, que trata da vida de Aaron Swartz. Mas vai um pouco além, a narrativa aproveita a história de Aaron para tratar também de outros assuntos, como a fragilidade dos sistemas judiciários e democráticos.

É um retrato feliz e infeliz desse período em que vivemos.

As lentes nos levam a conhecer quem foi Arron Swartz. Um garoto que desde sua infância era curioso, inteligente e criativo. Swartz fez parte do grupo que ajudou a construir o RSS e o Reeddit. Ele tinha um sonho no qual acreditava que todos nós deveríamos ter a informação de forma gratuita.

O documentário é de certa maneira dividido em duas partes, a primeira em contar quem é Aaron Swartz e a segunda envolvendo o processo legal.

O filme segue uma narrativa cronológica, mas positivamente construída por meio de recortes o que nos permite ver e apreciar os diferentes projetos e investidas de Aaron, ao mesmo tempo que entendemos como se deu o seu polêmico processo. Esses retalhos vão mostrando e construindo uma Aaron à medida que a narrativa avança e percebemos que não se trata apenas de um discurso vazio.

Talvez uma das maiores contribuições de seu legado não esteja vinculado a tecnologia em si, mas no direito de podermos usarmos livremente a internet e as informações contidas nela e as consequências disso em sua vida.

A experiência de Aaron Swartz no mundo corporativo

Em determinado momento, Aaron recebe um convite para trabalhar em uma corporação, mas após algum tempo na empresa ele pede demissão. Percebe que não quer trabalhar para uma multinacional ganhando um bom salário e benefícios por isso. Nesse momento ele já tinha dinheiro suficiente para se sustentar e acreditar que deveria fazer algo maior.

É bem significativo esse acontecimento, pois é um rompimento com um série de valores aceitos e uma escolha difícil. Aprendemos que um cidadão de bem é aquele casado, com casa própria, carro e um trabalho respeitável.

Aaron Swartz não rompe com esses valores sociais, mas ele não se deixar levar essa névoa do que seria o certo. É a partir daí, dessa ousadia e coragem em que ao mesmo tempo, em que Aaron sem associa a grandes nomes da tecnologia, como Bill Gates e Steve Jobs ele também se distância.

Seu desejo não é de criar produtos inovadores para resolver um ou outro problema das pessoas ou da sociedade, mas contribuir para criar uma nova sociedade.

Esse é o tipo de pessoa que o documentário nos apresenta. Um Aaron com coragem e muita ousadia. Alguém que via oportunidades, mas mais do que oportunidades um caminho para que as coisas aconteçam de maneira diferente.

Um convite a refletir sobre nossas instituições

Aaron Swartz
Foto de Noah Berger

Nesses retalhos vamos descobrindo e percebendo como cada vez mais ele se tornava um ativista em prol da internet. Nada de terrorista.

Uso a palavra (ativista) com muita cautela, pois as palavras ativista ou manifestante, desde as manifestações de 2013, tem recebido uma conotação mais pejorativa do que realmente são. E não raro associamos aqui (Brasil) ou nos EUA essas palavras a um ato terrorista. Como se lutar pelos nossos direitos fosse um crime.

Esse é um outro aspecto do documentário: nos leva a refletir sobre as instituições e os valores de nossa sociedade.

A democracia é defendida por muitos como um conceito que se perdeu. O que vivemos hoje, esta muito além do que deveria ser e quando alguém se opõem, o próprio sistema se encarrega de mostrar que essa pessoa é criminosa e trata de excluí-la. Ao longo do documentário, esses conceitos são construídos e nos fazem um convite a reflexão. Reflexões que foram muito bem trabalhadas e explicadas em outros documentários, como Requiem for the American Dream.

Trata-se de documentários americanos, mas mesmo no Brasil podemos perceber as mesmas consequências dessas instituições cada vez mais corrompidas.

E essa discussão ganha mais força, quando um processo contra Aaron é instaurado.

O processo contra Aaron Swartz

Aaron é flagrado ao fazer download de artigos científicos do MIT e a partir daí, o FBI passa a construir um caso contra ele. Nesse ponto, por mais isento que eu tentei, já estava demais envolvido na narrativa e o que se segue é uma série de acontecimentos que fazem com que, no mínimo, se questione o processo instaurado.

Percebemos por exemplo, como nossas leis são modificadas ou interpretadas ao benefícios de alguns e, inocentemente a maioria de nós acha que as coisas vão melhorar. Até determinado ponto Aaron é essa chama de esperança, mas ela vai se apagando.

A possibilidade de ver seus sonhos destruídos. Há pessoas que conseguem viver sem os seus sonhos, mas para o menino da internet isso não era uma possibilidade.

O sofrimento ocasionado por essa possibilidade fazem com que a depressão passe a ganhar força em sua vida. Uma depressão causada não pela ausência da família ou de amigos, mas pela dor de ver eles sofrendo por isso também.

Para finalizar

Por meio da história de Aaron, aprendemos sobre a sua infância, sua genialidade. Sobre sua vontade em ajudar o mundo, ao colocar sua inteligência favor dos outros. Mas também vamos refletindo sobre muito dos problemas de nossa épocas. Problemas sociais, democráticos, econômicos e legais. Uma frase do filme resume bem isso: “Estamos vivendo uma época em que grandes injustiças não sofrem consequências”

Ao terminar de assistir ao documentário, eu me senti triste como se nada valesse a pena, porque fiquei com esse sentimento de injustiça no ar, com um questionamento em entender por que é tão difícil fazer o mundo um lugar mais justo.

Porém, essa tristeza foi dando lugar para um outro sentimento, o da esperança. Ao decorrer de mais de 100 minutos assistimos um retrato da história recente da internet. Na qual, Aaron faz parte ativamente, usando seu potencial para realmente tornar o mundo um lugar melhor.

O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz é um documentário inspirador para pensarmos em como podemos contribuir para cuidar e melhorar o mundo em que vivemos.

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Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes

Já faz algum tempo que me interesso pelo minimalismo e embora, eu conhecesse o blog The Minimalists, de Joshua Fields Millburn & Ryan Nicodemus, eu desconhecia o documentário que eles tinha feito a respeito. No blog, Josh e Ryan compartilham suas jornadas no mundo no minimalismo e oferecem dicas em como incluir essa maneira de ver a vida. O documentário a jornada é outra.

O filme acompanha Joshua e Ryan no lançamento de um de seus livros. E nessa viagem somos levados a uma outra jornada, onde os dois e outras pessoas contam como estão vivendo com menos. Por meio dessas histórias vamos entendendo um pouco do que é o minimalismo. A perspectiva do documentário é deles e embora tenha inspire muitas reflexões, ainda carece de um pouco de crítica sobre o que é o minimalismo.

A história por trás do minimalismo

A história das pessoas que aparecem na tela tem algo em comum. Alguém é bem sucedido financeiramente, mas vive desanimado e triste, sente a vida sufocada, sem propósito. Essa pessoa tem vontade de mudar de emprego, mas não pode pois tem muitas contas para pagar. Ao refletir, ela percebe que trabalha basicamente para pagar as contas. Contas criadas para aliviar a tensão em relação ao trabalho. E um dia percebem que podem mudar suas vidas e viver com menos.

De um modo geral o minimalismo trata de ideias para de termos uma vida mais simples, com apenas aquilo que precisamos, consumindo apenas o necessário. Não se trata de ser contra ao consumismo, mas sim de ter um consumo mais consciente. De ser mais feliz com o que se tem.

Dinheiro x felicidade

Poder ser uma outra maneira de dizer que dinheiro não é importante, que dinheiro não traz felicidade, mas neste caso é. A questão dinheiro x felicidade é levantada. A grosso modo os ricos dizem que dinheiro não traz felicidade, os pobres dizem que sim.

A psicologia social vem estudando a relação de dinheiro e felicidade e até o momento e aponta que tanto pobres quanto ricos estão certos. Na sociedade atual (ou pelo menos na americana) é necessário ter uma certa quantia para vivermos satisfeitos, para garantirmos o mínimo, mas acima de determinado valor não há diferença.

Em números isso quer dizer que se uma pessoa ganha 500 mil reais por mês e passa a ganhar 2 milhões, ela não ficará mais feliz ou infeliz por causa do dinheiro.

O documentário trata da perspectiva das pessoas que já tem o mínimo, ou melhor que já tem mais do que o mínimo. E isso traz problemas para elas. Um dos exemplos apresentados, e o que acontece com muitas pessoas que buscam o minimalismo, é que elas passam a consumir mais para tentar alcançar a felicidade. Muitas chegam a ter um comportamento parecido com viciados.

Os perigos do consumismo

Essas pessoas não podem ver o lançamento de um novo celular, de uma marca x, que antes que as vendas comecem já encomendaram o produto. E no ano que vem, o processo será o mesmo. Se a pessoa for viciada em roupas, a história sem complica pois na industria da moda que era conhecida por ter quatro lançamentos por ano, agora tem 52.

“Eles querem que você acredite que você precisa dessas coisas”

O minimalismo tenta romper com esse círculo refletindo no que se compra e por que se compra determinando produto ou serviço. É um consumo mais consciente, de comprar o que realmente é necessário ou de algo que realmente vá agregar valor para a sua vida.

E essa maneira é diferente do que vendido como a ideia do sonho americano. Nessa perspectiva, os Estados Unidos é visto com a terra da oportunidade. Nela, o americano acredita que com trabalhando duro ele irá prosperar. E prosperar significa ter uma casa grande, um carro e um monte de coisas. Quanto mais melhor.

Minimalismo - casas pequenasA aquisição de uma casa é um bom exemplo. Alguém procura uma casa no valor de U$ 500.000 pois esse é o valor disponível para compra-lá. Porém, esse valor não existe o que existe é uma hipoteca nesse valor, que será paga ao passar dos anos.

O minimalismo questiona o porquê disso. Por que adquirir uma divida ao comprar uma casa enorme? Ao questionar essa compra, o documentário aborda a questão de casas grandes e novas soluções de casas menores, nas quais os espaços são melhores aproveitados. É possível viver com menos e ser feliz.

A felicidade é um ponto recorrente no documentário. Em nosso tempo, acreditamos que podemos fazer o que quisermos e podemos. O problema é em muitos casos sacrificamos o que é mais importante em nossas vidas. O minimalismo seria um caminho para repensarmos se os sacrifícios que fazemos em nome do trabalho e do consumo valem a pena, se isso nos traz felicidade.

Experiência pessoal

Com tantos insights, lembrei de uma viagem na qual percorri o Caminho de Santiago. Os valores levantados ao longo do documentário eram questões que tive na prática. Digamos que vivi o minimalismo por 30 dias.

O dinheiro era mínimo, mas tinha comida, não tinha smartphone, pouquíssima roupas, apenas o essencial. Eu não sacrificava nada, apenas vivia com o que tinha e isso foi gratificante, pois com o passar dos dias eu focava cada vez mais no que era importante que naquele momento era: o caminho, as pessoas e a escrita.

Minimalismo não é uma filosofia, mas para mim serviu e acabou se tornando parte da minha filosofia de vida, na qual eu desconhecia o nome. Eu gosto das ideias por trás do minimalismo, mas há um ponto que me me incomoda e esperava que o documentário fosse mais crítico em relação a isso: o minimalismo nem sempre é uma opção.

Na minha pequena experiência eu tinha um objetivo (o caminho), um propósito (escrever) e um cuidado com o outro (as pessoas). Nós nos ajudávamos para que todos tivessem o melhor caminho possível. Esse cuidado com o outro, com um pensamento menos individualista é o que me incomoda na abordagem com que o minimalismo foi tratado na narrativa.

Para finalizar…

A abordagem do filme é da perspectiva da classe média americana frustada que tem o luxo de poder fazer essas escolhas. Não tiro mérito do minimalismo, mas o documentário poderia refletir qual é o lugar do minimalismo diante da pobreza do mundo.

Em outras palavras, o minimalismo é um bom caminho para refletir sobre o que consumismo. Porém,  é uma abordagem individualista a qual trata o consumo consciente para aqueles que tem dinheiro e não os reais problemas do consumismo.

Se você busca propósito em sua vida? Quer mais felicidade, recomendo assistir ao documentário. No mínimo, terá boas inspirações para pensar em sua própria vida e buscar e construir o seu caminho. O documentário tem o mérito de apresentar questionamentos interessantes sobre como consumimos e sobre o que nos feliz, ou o que realmente para em nossas vidas para sermos felizes.

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Desafio: 30 dias de documentários

Eu adoro seriados. Se não há nada para fazer, sou capaz de ficar 12, 14 horas assistindo a seriados. Pra ser sincero, mesmo quando tenho o que fazer, eu fico um bom tempo diante da tela.

Desafio 30 documentários em um mês
Mario Calvo

Nem sempre se trata de bons seriados, às vezes, fico lá até o final (Supernatural depois da 4ª temporada). Eu admito, sou um viciado em seriados, mas nem sempre foi assim. Antes eu era viciado em livros, depois filmes.

Um vício é um vício e a gente precisa parar.

Por que parar de assistir seriados?

Houve um tempo em que eu assistia mais documentários, lia mais livros, assistia bons filmes, mas de repente, comecei a mudar. Primeiro com filmes onde não precisasse pensar, depois com seriados que não precisasse pensar e de repente eu só estava consumindo um monte de seriados, sem mesmo saber o porquê. Apenas porque eu não queria pensar.

E com uma industria que produz tanto é natural que tenha muita porcaria por aí.

No meu caso, o problema é que eu já não sinto a emoção daquela porrada que um bom livro nos faz sentir ou como uma boa história muda nossa percepção. Lembram de Matrix?
Mas isso já faz tempo.

As histórias que eu estava consumindo já não conseguiam mais fazer isso. Eu precisava de algo novo. Queria sentir novamente aquilo que os gregos chamavam de catarse (uma purificação, uma identificação com a história ou personagem).

A minha droga já não fazia mais efeito. Eu precisava de algo mais forte.

A solução

Não quero parar de assistir documentários, mas eu preciso de um desintoxicação. A verdade é que ando me sentindo cada vez mais burro. E para mim é burrice quando deixo de fazer uma coisa para assistir um episódio de algo que não agrega valor algum para a minha vida algo esta errado.

A minha ideia fantástica é apenas uma tentativa de ver outras narrativas, de novas perspectivas. E um desafio de 30 documentários, em 30 dias parece-me uma caminho para descobrir um novo olhar. E, desintoxicar de muitos seriados.