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Da indignação com Roger Waters

Talvez seja um pouco tarde para tratar do comentário de Roger Waters manifestando a sua opinião política nas eleições brasileiras, mas ecoa em mim a necessidade de refletir sobre o assunto.

Telão do Show de Rogers Waters
Foto do Twitter

Há duas questões principais que me chamaram a atenção: uma delas diz respeito ao uso do dinheiro público para beneficiar as eleições em favor ao candidato do PT; a segunda trata da indignação de alguns fãs do artista com a conduta dele ao expor seu pensamento político.

Não vou tratar do primeiro assunto, que esta sendo analisado pelo TSE em ação movida contra a produtora que realizou os shows no país. A questão não me parece simples pois coloca em jogo o uso de dinheiro público, oriundo da Lei Rouanet com o liberdade de expressão. Além de outras questões jurídicas que desconheço.

Viajando na música

A repercussão do acontecimento parece ter pego muitos que foram ao show de surpresa; cheguei a assistir um vídeo em que um fã dizia que não fora ao show por causa de política, que queria se divertir.

Foda-se a opinião, a gente veio para um show de Rock pra se distrair – Frase de um fã indignado ao sair do show de Roger Waters em São Paulo

Quando ouvi isso, eu parei por um instante para que o meu pensamento revisitasse o que eu conhecia sobre música, sobre rock. Peguei carona com aquele hipopótamo de Brás Cubas e segui o delírio das ideias.

Primeiro pensei em música em geral, como algo divertido onde dançamos. Lembrei das cenas de filmes da década de 20 e 30 americana, onde o jazz invadia as boates e os negros iniciavam sua influência na música é na cultura americana e na mundial.

Depois veio o blues, com sua tristeza transformando e criando a música. Esse mesmo blues que influenciou uma quantidade de jovens ao redor do mundo, como um Elvis Presley. Um jovem que mudou a cara da música, com seu carisma, performance e talento criando trazendo um estilo completamente novo. Sua influência e rebeldia não seria apenas na música. Anos depois o movimento conhecido como contracultura se servia muito do rock e, principalmente, da atitude que o rock representa.

No Brasil, essa contracultura teve um expressão conhecida como tropicalismo, talvez um dos movimentos mais ricos da nossa história musical. Um movimento forte com artistas incríveis que encontraram na música um meio de nos contar uma história e de nos fazer refletir sobre o contexto em que vivíamos.

O estilo era diferentes mas anos depois um outro grupo de jovens também faria história. Era a turma do rock de Brasília de onde surgiu uma Legião Urbana e um Capital Inicial. Eles não saíram do nada. Eles queriam um mundo melhor e queriam dizer isso por meio da música.

Ao pensar nesses momentos da história da música, parece-me difícil não pensar na relação entre música e política. Mais difícil ainda quando lembro de letras como Meninos e Meninas, Metal Contra Nuvens, Faroeste Caboclo ou Que País é Este?

De volta ao Roger Waters

E lembrei de The Wall. Fico me questionando como um fã do Pink Floyd escutaria qualquer música do grupo sem associar com política. Como é que poderiam pensar que uma música como Another Brick In The Wall seja apenas diversão? Há um conteúdo político explicito nela.  Como um artista como Roger Waters que criou um álbum tão político faria música apenas por diversão?

Entendo que no momento político muitas pessoas tenham saído indignadas do show do Roger Waters por se sentirem ofendidas por ele ter um pensamento diferente do seu. É preciso lembrar, no entanto, que esse pensamento não é incoerente. O artista não mudou do dia para noite, o seu passado e o seu legado falam por si. Ou seu presente: não é novidade as críticas dele contra o presidente americano.

Quem é fã do Roger Waters e conhece um pouco das músicas da sua antiga banda sabe que não é de hoje que ele tem esse pensamento. Quem conhece um pouco de Rock sabe que o gênero vai além de diversão. É no mínimo ingenuidade esperar apenas por diversão sem conteúdo nesse gênero de música.

Ninguém precisa concordar com ninguém, mas querer que alguém seja preso ou condenado por expressar um pensamento político diferente é um exagero. Não creio que o artista tenha faltado com respeito com os públicos dos seus shows. Prefiro acreditar que aqueles que ficaram indignados e surpresos não eram fãs nem do Pink Floyd e nem do Roger Waters.