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Como lidar com a ansiedade em dias de quarentena?

Foto de Samuel Austin no Unsplash

Como você tem passado esses dias de quarentena? Como os acontecimentos tem afetado você? Como anda a sua ansiedade?

Do lado de cá, posso dizer que a semana passada não foi tranquila. Acho que a quantidade de informações na mídia, as pressões para ficar em casa e a culpa quando se precisa sair, fizeram com que eu me sentisse com medo do futuro.

O medo do futuro é apenas uma forma de colocar um outro tipo de sentimento, mais conhecido pelo nome de ansiedade.

Ansiedade é quando nossa mente está mais preocupada com o que vai acontecer; é como se algo ruim estivesse predestinado a ocorrer e isso provoca emoções diversas no corpo, podendo até nos paralisar.

As minhas soluções para lidar com a ansiedade

Nesses últimos dias, duas coisas tem me ajudado a superar essa ansiedade em que vivemos.

Não estamos sós

A primeira delas foi reconhecer que não estou sozinho. A ansiedade não é algo que me torna especial. Sou apenas mais um no meio de milhões de pessoas ansiosas.

Em meio a essa pandemia que estamos enfrentando, as coisas se tornam mais complicadas e ficamos mas ansiosos. Em meio a essa ansiedade coletiva há algo de bom. Não estamos sós.

Saber que não estamos sozinho nos conforta. Perceber que o outro tem a mesma dor que a gente, nos aquece a alma e fortalece os ânimos.

Afinal de contas, nada melhor do que uma alma para aquecer o coração da gente e espantar esse sentimento frio de sentir-se só.

Trazer a mente para o presente

A outra coisa que tem me ajudado na prática é meditar.

Meditar é algo que me traz a mente para o aqui e o agora. Livra-me da culpa do passado e liberta-me do medo do futuro, deixando-me livre para viver o presente.

A meditação livra-me da culpa do passado e liberta-me do medo do futuro, deixando-me livre para viver o presente.

Acho que a meditação é o meu caminho para liberdade e é com o sentimento cheio de gratidão por ter praticado que hoje digo que estou sem preocupações.

É isso mesmo… hoje eu não tenho preocupações, apesar do que acontece no mundo, apesar do medo que assola nossas casas e apesar do que futuro me reserva.

Hoje encontro-me tranquilo.

Sinto o amor das pessoas que amo, sinto o meu ser cada vez mais conectado com o universo e no momento não há nenhum problema que eu possa resolver.

Há problemas, mas não posso resolvê-los agora. E se não há nenhum problema que eu possa resolver agora, então não há problema.

É simples de mais, né?

É sim, mas é o jeito que estou refletindo, aprendendo e vivendo esses dias.

E quanto a você? Como estão os seus dias? O que tem feito?

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Nem toda merda é uma bosta

Se você esta se sentindo um merda, lembre-se: há merdas e bostas. O texto é basicamente sobre merda.

(i) – introdução ao tema

Não pesquisei, mas certamente o assunto (merda, se você não entendeu) não é novo na literatura.

De memória, lembro de um livro do Rubem Fonseca (Secreções, Excreções e Desatinos). Além disso, há no conjunto de sua obra a obra dele, do autor, tem diversas referências sobre merdas, fezes e excreções.

Outro que literalmente fez de suas vezes literatura, foi o Marques de Sade. Dizem que alguns de seus versos foram escritos com suas próprias fezes. É bem provável que não seja verdade, mas a imagem é, no mínimo, impactante.

No entanto, acho que ninguém personalizou tanto a questão de merda, quanto Charles Bukowski.

Ele foi um merda, em um certo sentido, ou em todos.

(ii) – a merda como sinônimo de fracasso

Todo mundo sabe o que é merda, mesmo assim vou tentar explicar.

Merda é algo que não presta mais; algo recente, que foi descartado pelo corpo depois de ter extraído todos os nutrientes necessários.

É tão descartável, tão imprestável que nosso corpo consegue guardar toda aquela porcaria de comida processada, açúcar e gordura. Consegue absorver até veneno, mas não a merda.

A merda é a coisa mais desprezível, descartada; menos amada, menos querida que existe. Ela é basicamente o resultado de tudo que não presta.

E não é difícil usá-la como um sinônimo de fracasso.

É nesse sentido que o autor de Notas de um velho safado se encaixa nesse texto. Ele era alcoólatra, viciado em jogo e sabe-se lá o que mais… Ah sim, escritor e poeta.

Para falar de fracasso, o Sr. Charles é um bom começo. Talvez, até uma referência.

(iii) – estudo de caso: Charles Bukowski

Se fosse escrever uma biografia do poeta, diria que ele tinha sido cagado ao invés de parido. Ou simplesmente, uma merda que saiu pelo lugar errado.

Bukowski não teve uma infância boa, a adolescência não foi melhor e a vida adulta foi uma merda. Com tantos fracassos, ele lidou com as coisas da melhor jeito que conseguia, bebendo e apostando.

Basicamente, a maneira que ele achou para viver foi por meio dos vícios. Por isso, eu o considero com um doutor, um especialista em merda, em fracassos. Não há maneira de se sentir mais merda do que ser um escritor, alcoólatra, com um emprego de merda e num mundo em que você não se encaixa.

Penso que ele só se mantinha vivo graças ao álcool, às apostas e à literatura.

A figura de Bukowski é de um cara a não ser seguido: não era rico, não tinha o que ensinar, não tinha família, não paz de espírito, certamente não.

E ele foi visto como um fracassado por muito tempo. Ele sempre se sentiu um fracasso. O único fato de sucesso foi ter publicado e vendido milhões, mas isso não o fez parar de beber, apostar ou escrever.

Mas as coisas mudaram…

(iv) – até as merdas podem evoluir

Dizem que um ingrediente fundamental no processo criativo é a dor. Você precisa se fuder muito para criar algo que preste.

No caso de Bukowski, o fato dele se passar muito trabalho foi algo bom, pois o que ele mais queria era ser escritor.

Esse “querer”, objetivo de vida, até pode ser supervalorizado por algum coach ou guru. Algo do tipo, acreditou no sonho de ser escritor e finalmente conseguiu. O mais provável, no entanto, é que ele não servisse pra mais nada mesmo e não suportaria outro tipo de trabalho.

Esse desejo de escrever, essa necessidade fez com que ele transformasse todo o abandono, toda a perda, toda a dor que um dia sentiu em palavras. Não em belas palavras, com uma estética que encantasse a todos, como a poesia de um Rimbaud ou de um Pessoa. O estilo de Bukowski era bem diferente.

Acho que no fundo, Charles usava a sua escrita para xingar o mundo. Devolveu ao mundo uma realidade sóbria, honesta e franca sobre o que pensava, sobre o que sentia e sobre quem era.

Ele pegou toda a merda de vida que tinha e se assumiu como um fracassado. E estava bem com isso. E mando todo mundo se fuder.

Acredito que é aí que a mágica acontece, quando toda aquela dor, aquela vida de merda acumulada, se transforma em bosta. Ela fede igual, mas começam a surgir moscas. E então, ela começa despertar o interesse. Uma bosta serve de adubo, mas precisa de tempo.

Bukowski nutriu a terra com todo o adubo (bosta) que tinha e semeou literatura.

Acho que ele percebeu isso logo no início, que era tão merda como pessoa, com um emprego de merda, com uma vida de merda, com um sonho merda que só conseguiria escrever se se assumisse e olhasse para tudo com honestidade.

(v) – finalmente as coisas mudaram…

Então finalmente o grande dia sonhado chegou… Recebeu uma proposta para escrever. Largou o emprego que odiava e podia se dedicar a literatura.

Com a publicação de seus textos e com algum dinheiro, Bukowski finalmente deixaria de ser um fracassado.

Só que não….

Ele continuou sendo o mesmo cara que bebia, apostava e escrevia. Com a diferença de que não tinha um emprego de merda e que tinha mais dinheiro para beber, apostar e ficar escrevendo.

Se você procura alguma moral, ensinamento ou motivação nesse texto, talvez você tenha algum problema. Mas não quero ofender caso você seja novo por aqui.

Então vou fazer um resumo para facilitar:

1) Até as merdas podem mudar, então acredite você também pode;

2) Nem toda merda é desnecessária. Algumas viram bosta, por exemplo, e se transforam em adubo. Nutrem o solo para os pastos crescerem; para que se transforme em comida para os bois.

2) Assuma quem você é, afinal não existe merda pior do que negar a si mesmo.

Um dia de merda para todos…

Tchau!

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Dos dias de gozo

Há tanto trabalho para fazer; tantos textos para serem escritos, revisados e publicados. As horas são poucas, os dias parecem ser mais curtos, mas sei que isso é apenas uma desculpa para não focar no que precisa ser feito: escrever, revisar e reescrever.

Existem pessoas que ficam em pânico com o famigerado bloqueio criativo. Sinceramente, não sou muito adepto deste tipo de sensação. Uma das razões, talvez seja, por não encarar o ato de criar como um trabalho diferente de outra atividade. Sim, criar é mais divertido, mas nem por isso menos trabalhoso.

No caso da escrita, por exemplo, eu raramente enfrento o problemas dos bloqueios criativos. A atividade de escrita é um processo de ações simples: pegar a superfície (papel ou computador), sentar e escrever. A primeira escrita que surge é sempre o rascunho, o embrião de algo que talvez se desenvolva. Eu sou daqueles que acreditam que exista dor no processo de criação, mas para mim essa etapa é mais como um prazer, um gozo.

Colocando de uma outra maneira

Vamos imaginar que o processo de criação seja semelhante ao processo do nascimento de uma criança. O primeiro rascunho é uma explosão; é um gozo, vem tudo junto. Eu não separo o que é bom do que é ruim. Depois vejo se é algo que esta vivo ali, algo para ser cuidado e desenvolvido, daí o trabalho começa é onde eu me perco.

Note, não há problema para criar, mas o trabalho de gestação do texto até o nascimento para o mundo, a publicação é onde eu preciso de mais energia. Não quer dizer que não precise de criatividade nesses processos, mas trata-se mais de um ofício de talhamento. Ver esse texto se desenvolvendo, ganhando força e me desafiando é também encarar medos e fantasmas. E mostrar tudo isso ao mundo é doloroso.

Tudo bem, nem sempre é doloroso, mas lembrando algumas coisas que já escrevi e que gostei a presença de desconforto estava presente. Algumas vezes, passo semanas digerindo como reescrever uma frase, revisar aquelas linhas ou mudar aquela palavra. Não sei explicar, mas nesse processo é como se estivesse cortando um pedaço de mim, da minha alma.
Essa última frase me lembrou algo do Hemingway, o que basicamente resume tudo o que eu falei anteriormente:


“Não há nada para escrever. Tudo o que você precisa fazer é se sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar”

Agora fiquei puto. Precisei de uns cinco parágrafos para expressar o que Hemingway conseguiu fazer em duas frases, mas tudo bem ele era um gênio e eu não. E além disso, eu tenho muitos textos para revisar, escrever e hoje estou mais para o gozo, mais para uma desculpa do que para o trabalho.

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Da ansiedade de uma viagem

Viajar é algo transformador e renovador. No meu caso, basta sentir a atmosfera da rodoviária, do aeroporto, do porto ou da estrada para me sentir melhor.

Talvez, a tranquilidade de estar na estrada (viajando), só se compara com a ansiedade que sinto semanas antes de viajar.

Muito dessa ansiedade não vem da viagem em si, mas de um medo. Um medo muito grande. Um medo que carrego da pior viagem que fiz.

Há pouco mais de 10 anos, eu havia planejado um intercâmbio para o Canadá. Havia me programado, havia me preparado: férias agendadas, passagem comprada, contrato com a escola, hospedagem. Estava tudo certinho. Mas de repente… tudo foi por água abaixo, quando recebi a informação que o consolado canadense havia negado o meu visto.

O meu chão caiu. É tão triste ver um sonho se desmoronando, sem que você possa fazer nada para evitar.

Anos depois lendo um livro do Amyr Klink, consegui entender melhor o que tinha acontecido. Em determinado momento do livro, ele diz que a pior coisa que pode acontecer em uma viagem é que ela não aconteça.

Canadá foi a pior viagem que tive porque eu não viajei. A ansiedade que vivencio em viagens, vem desse medo que ainda não me recuperei. Não me preocupa, se algo não der certo durante a viagem. Anseio por não conseguir partir.

Algo sempre dá errado e tudo bem. Muitas das minhas melhores lembranças em viagens foi porque algo, aparentemente, não deu certo. Ou, pelo menos, não aconteceu como eu havia planejado. Mas isso faz parte.

O que ainda não consigo lidar é com essa tensão pré-viagem. As últimas semanas, foram vividas com esse misto de ansiedade e medo, correria no trabalho e muitos compromissos. Sabia que não ia dar conta, mas priorizei o mais importante. Mesmo assim, aquela sensação desagradável não desaparecia.

Neste momento, escrevo de dentro do avião e toda a tensão, ansiedade, medo das últimas semanas se esvainecem conforme o avião corta os céus. Não lido bem com as semanas que antecedem uma viagem, porém no momento em percebo que estou na viagem, no movimento, os medos desaparecem porque entendo que, de alguma maneira, estou no meu habitat natural.

É não canso de dizer que viajar, estar na estrada é tão bom, gratificante. E como escrevi no início: transformador e renovador.

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De viagens e viagens

Estou na estrada admirando a paisagem e apreciando o momento. É tão bom pegar a estrada, curtir a viagem, o percurso antes de chegar ao destino.

Acho que alguém já escreveu que o mais importante da viagem é percurso e não a chegada. Acho que foi o Mário Quintana, mas não estou certo.

Perco-me em pensamentos, tentando lembrar da frase, busco na memória, depois também cato no Google. Vem-me a lembrança de outros versos. Não os de Quintana, mas de Cora Coralina:

O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.

Cora Coralina

Mas ela está mais a filosofar da vida, dessa longa viagem, que nem é tão longa assim.

Não consigo lembrar da frase.

Talvez, o Quintana não estivesse falando de viagens. Para falar a verdade acho que era de vacas.

E daí o pensamento me pega e início outra viagem. De uma vaca, de hipogrifo, de hipopótamo e autor defunto ou seria defunto autor; das nuvens da imaginação vou até os labirintos de um castelo, no universo kafkaniano. Lembro de Tolstoi, Dostoievski, tantos outros, tantos nomes, tantas aventuras. Tantas viagens.

É tão boa a literatura, a leitura de um livro, as descobertas e o prazer antes do desfecho final.

Parece que há mais viagens entre estradas e livros, do que pressupõe nossa escassa imaginação.

Não tenho a menor ideia de quais eram os versos do Quintana, mas importante é o percurso.

Há tantos jeitos de viajar, não é mesmo?

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cultura

Da indignação com Roger Waters

Talvez seja um pouco tarde para tratar do comentário de Roger Waters manifestando a sua opinião política nas eleições brasileiras, mas ecoa em mim a necessidade de refletir sobre o assunto.

Telão do Show de Rogers Waters
Foto do Twitter

Há duas questões principais que me chamaram a atenção: uma delas diz respeito ao uso do dinheiro público para beneficiar as eleições em favor ao candidato do PT; a segunda trata da indignação de alguns fãs do artista com a conduta dele ao expor seu pensamento político.

Não vou tratar do primeiro assunto, que esta sendo analisado pelo TSE em ação movida contra a produtora que realizou os shows no país. A questão não me parece simples pois coloca em jogo o uso de dinheiro público, oriundo da Lei Rouanet com o liberdade de expressão. Além de outras questões jurídicas que desconheço.

Viajando na música

A repercussão do acontecimento parece ter pego muitos que foram ao show de surpresa; cheguei a assistir um vídeo em que um fã dizia que não fora ao show por causa de política, que queria se divertir.

Foda-se a opinião, a gente veio para um show de Rock pra se distrair – Frase de um fã indignado ao sair do show de Roger Waters em São Paulo

Quando ouvi isso, eu parei por um instante para que o meu pensamento revisitasse o que eu conhecia sobre música, sobre rock. Peguei carona com aquele hipopótamo de Brás Cubas e segui o delírio das ideias.

Primeiro pensei em música em geral, como algo divertido onde dançamos. Lembrei das cenas de filmes da década de 20 e 30 americana, onde o jazz invadia as boates e os negros iniciavam sua influência na música é na cultura americana e na mundial.

Depois veio o blues, com sua tristeza transformando e criando a música. Esse mesmo blues que influenciou uma quantidade de jovens ao redor do mundo, como um Elvis Presley. Um jovem que mudou a cara da música, com seu carisma, performance e talento criando trazendo um estilo completamente novo. Sua influência e rebeldia não seria apenas na música. Anos depois o movimento conhecido como contracultura se servia muito do rock e, principalmente, da atitude que o rock representa.

No Brasil, essa contracultura teve um expressão conhecida como tropicalismo, talvez um dos movimentos mais ricos da nossa história musical. Um movimento forte com artistas incríveis que encontraram na música um meio de nos contar uma história e de nos fazer refletir sobre o contexto em que vivíamos.

O estilo era diferentes mas anos depois um outro grupo de jovens também faria história. Era a turma do rock de Brasília de onde surgiu uma Legião Urbana e um Capital Inicial. Eles não saíram do nada. Eles queriam um mundo melhor e queriam dizer isso por meio da música.

Ao pensar nesses momentos da história da música, parece-me difícil não pensar na relação entre música e política. Mais difícil ainda quando lembro de letras como Meninos e Meninas, Metal Contra Nuvens, Faroeste Caboclo ou Que País é Este?

De volta ao Roger Waters

E lembrei de The Wall. Fico me questionando como um fã do Pink Floyd escutaria qualquer música do grupo sem associar com política. Como é que poderiam pensar que uma música como Another Brick In The Wall seja apenas diversão? Há um conteúdo político explicito nela.  Como um artista como Roger Waters que criou um álbum tão político faria música apenas por diversão?

Entendo que no momento político muitas pessoas tenham saído indignadas do show do Roger Waters por se sentirem ofendidas por ele ter um pensamento diferente do seu. É preciso lembrar, no entanto, que esse pensamento não é incoerente. O artista não mudou do dia para noite, o seu passado e o seu legado falam por si. Ou seu presente: não é novidade as críticas dele contra o presidente americano.

Quem é fã do Roger Waters e conhece um pouco das músicas da sua antiga banda sabe que não é de hoje que ele tem esse pensamento. Quem conhece um pouco de Rock sabe que o gênero vai além de diversão. É no mínimo ingenuidade esperar apenas por diversão sem conteúdo nesse gênero de música.

Ninguém precisa concordar com ninguém, mas querer que alguém seja preso ou condenado por expressar um pensamento político diferente é um exagero. Não creio que o artista tenha faltado com respeito com os públicos dos seus shows. Prefiro acreditar que aqueles que ficaram indignados e surpresos não eram fãs nem do Pink Floyd e nem do Roger Waters.

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É preciso resistir até que a tristeza passe

Tem dias em que bate uma tristeza na gente. Estamos tranquilos em nosso canto, quietos, estático sem fazer nada, de repente vem um clique, um pensamento e pronto…

Somos invadidos por um sentimento ruim, aquela sensação de dor no peito, como se as paredes da alma esmagassem a carne, os órgãos, os ossos. Até que persista apenas uma coisa, talvez o coração ainda batendo no meio disso tudo.

E ele como se tivesse um último zumbido de esperança, faz ecoar um grito. A sensação da garganta apertada, os olhos caídos enchendo, transbordando algo. É o choro que vem…

As lágrimas. Esforçou-me para impedi-las. Não é certo chorar em lugar público. Não é aceitável. Se há algum lugar, onde-se pode lagrimejar é em casa, escondido, quando as luzes estão apagadas, quando não há ninguém por perto. Mas não estou em casa.

Seguro aquelas lágrimas, aquele choro, faço força, aperto as minhas mãos agressivamente no corrimão do ônibus ou no livro que seguro, como se esse aperto fosse trancar esse espasmo; impedir essa fagulha que sai de mim. É a materialização de tanta dor, que nem mesmo o corpo suporta mais o peso da alma.

Se ao menos tivesse uma mão amiga para segurar, ao invés de um objeto morto; se ao menos alguém se importasse com a dor que tem aqui dentro, mas ninguém sabe por que antes de encarar a todos, lavo o rosto, abro os olhos e finjo um sorriso como se nada tivesse acontecido.

Levanta cabeça uma voz me diz; chorar é para os fracos. Sim deve ser para os fracos, pois não tenho forças para lutar contra essa tristeza, mesmo quando choro no escuro na esperança em que as lágrimas levem consigo a tristeza da alma, o aperto no corpo continua lá.

No fundo, eu sei que é preciso continuar, seguir em frente; é preciso resistir para que o novo dia chegue.

Queria poder acabar com tudo isso, mas não cabe a mim não tenho o direito nem o poder de terminar com essa dor que me atormenta.

Que espécie de ser humano que não tem liberdade sobre si? Que não tem liberdade sobre suas vontades? Que espécie de ser que sou que preciso esconder se no escuro da noite a tristeza que sente? Que pessoa é essa que precisa esconder quem é, aniquilar seus e sonhos ?

Eu não quero, mas preciso resistir a essa ideia de desistir de tudo.

Mesmo sem esperança é preciso resistir, manter-se ereto, forte. Não como uma barreira que impede a passagem d’água, mas como as raízes de uma árvore que resiste a força da correnteza. Eu repito: é preciso resistir e quem sabe encontrar uma mão para não desistir sozinho; é preciso resistir até que a esperança preencha esse vazio e expulse a tristeza de mim.

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Um copo de vinho e mente aberta

Taça de Vinho
Photo de Zachariah Hagy no Unsplash

Você já parou para pensar no turbilhão de movimentos que o vinho precisa fazer para chegar até copo antes de consumirmos? E nem estou falando de todo o processo de fabricação e de logística, apenas do curto espaço de tempo, entre abrir a garrafa e despejar uma pequena quantidade do líquido em nossos copos. 

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Coluna do palhaço e festas no presídio

De modo geral, gosto muito de algumas colunas de jornais, talvez de jornais antigos porque hoje acompanho pouco. Em uma tentativa de acompanhar um pouco mais o que acontece por aí, inauguro hoje a coluna do palhaço.

A coluna do palhaço é apenas um espaço aqui para comentar alguns acontecimentos da semana. O nome é em minha própria homenagem. Sinto me um palhaço a busca do meu nariz quando leio ou assisto à algumas notícias.

Festas nos presídios

Não foram apenas as festas de final de reveillon que tiveram cobertura na imprensa.

Os presídios também resolveram participar. O primeiro video de festinhas veio do pior presídio do país. O presídio Central de Porto Alegre.

Pra não ficar atrás, o presídio de Colônia Agroindustrial de Aparecida do Norte também liberou o video das festas. O presídio já estava na mídia por conta das rebeliões ocorridas no primeiros dias de 2018.

O vídeo, porém, não era da festa final de ano. É que os de tentos não tiveram festa de reveillon porque estava em casa.

O vídeo era só a festinha de um colega.

Não sei o que é pior e mais constrangedor: ver que presidiários estão promovendo grandes festas nas cadeias. Ou descobrir que os presos fazem mais festa do que agente, digo eu.

Festas nos presídios ii

Parece que quem ficou triste com tudo isso foi a diretora do presídio xxx. A fulana disse se sentir injustiça da por ter sido afastada do cargo porque não sabia de nada dessas festas.

Eu me pergunto se ela realmente não entendeu porque foi afastada, ou se sentiu injustiçada por não ter recebido o convite para a festa.

Festas nos presídios iii

A boa notícia é que essas festas foram pagas com o dinheiro dos próprios presos.

Tudo partiu deles: as drogas, as cervejas, a compra dos policiais e acho que até a locação do presídio.

Tem muita empresário procurando o governos para prestar parcerias e fazer eventos fixos para gerar mais rendas para os seus negócios.

Aliás, o governos afirmou que não gastaram nada mesmo. Ou quase nada. Da verba destinada do governo federal, apenas 4% foram gastas pelo estados.

Não sei como eles gerenciam os presídios, se nem o dinheiro que é fornecido pela União os estados estão gastando.

Enquanto eles vão inventando desculpas sem sentido, eu continuo a procura pelo meu nariz de palhaço.

Porque acho que vou ter que continuar a usá-lo por um bom tempo.

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Ano ímpar não dá pra confiar

2017 vai deixar saudade… não, não vai não. Não para mim. Não gostei. A começar que era ano ímpar. Tenho algo com número que não dá pra dividir… não sei explicar. Ano ímpar não dá pra confiar.

E 2017, não dava para confiar mesmo.

Foi um ano do tipo deputado federal: só sugou o que nos restava de energia. E quando, parecia que ia fazer alguma mudança, ter alguma melhoria mudava o voto na última hora.

Nos primeiros meses do ano até cheguei a acreditar que seria diferente, mas daí começavam os aumentos da gasolina, depois a reforma trabalhista. Aliás, eu ainda não me explicaram como isso vai aumentar os empregos. Não seria melhor reduzir os impostos ou diminuir a burocracia de criação de empresas. Ou, quem sabe incentivar a criação de novas empresas.

Eu já queria que ano acabasse lá por junho. Passa a régua e começa de novo, mas tinha mais. Entra em recesso ano ímpar.

Para o mundo que eu quero descer

Mas 2017 seguiu em frente, mais aumentos de gasolina. Eu não tenho carro, mas preciso cozinhar. C@#$&%ˆ

Teve coisa boa também. Muitos filmes, muita música, muita arte. Teve cada exposição… Ah sim. Teve exposição fechando porque teve gente que não gostou. “A bola é minha e eu cansei”.

Teve muita cara de pau também. Muita cara de pau.

O que salvou mesmo 2017 foi as gentes. As amizades. Àquelas que não acabaram por causa da falta de tolerância. Àqueles amigos que seguiram juntos apesar de tudo.

Mas não dá pra dizer que foi de todo ruim. Teve coisa boa também, mas fica para outra hora porque o recesso já começou.

O bom mesmo é que esta acabando e que 2018 vem aí. Tenho certeza que será melhor. Afinal, pior que 2017 vou te dizer né. Além disso, 2018 é número par, daí dá pra confiar.

Em ano ímpar eu não confio.