Despedir talvez seja um dos momentos mais difíceis que precisamos aprender a lidar em nossas vidas. 

Não penso apenas nas grandes e dolorosas despedidas, como ver alguém que amamos ir embora. Penso também nas pequenas despedidas que fazem seguirmos em frente.

No começo de abril, eu saí da empresa em que trabalhava há pouco mais de dois anos. A decisão partiu de mim, mas mesmo assim não foi um momento fácil. 

Quando a derradeira data, do último dia de trabalho chegou, eu não me senti bem.

O dia foi tenso, algo me doía. Sentia-me cansado, incomodado e ansioso. Muita ansiedade e uma dor inexplicável. Isso se materializou em meu corpo na forma de dores de cabeça, na nuca e na tensão nos ombros. 

Eu estava confuso com as minhas sensações com os meus sentimentos. Não entendia direito o que estava acontecendo, nem do que se tratava. Até que percebi o óbvio. Era o último dia de trabalho. Era o fim de um ciclo. 

É óbvio – imagem do filme O Poço.

Compreender nos liberta 

Quando percebi que estava me despedindo, algo mudou. A ansiedade, o incômodo se foram e uma sensação de liberdade se apossou de mim.

O corpo tenso durante todo o dia cedeu, mas ficou a dor. 

Apenas uma dor, uma dor que eu entendia. Olhei para essa dor e a trouxe para perto de mim e a abracei. Abracei com carinho porque eu compreendia que se tratava de uma tristeza. Uma tristeza de estar só, de partir, de despedir-me. 

Devido a quarentena, as pessoas não estavam no escritório o que tornou a dor um pouco mais intensa. 

Queria ter podido me despedir propriamente, com um abraço, com lágrimas e com risadas. 

Senti falta da liberdade de estar com os outros, de um abraço amigo, de um carinho gostoso, de encontrar pessoas e de senti-las. 

Fiquei triste porque disse tchau por meio de uma tela, por meio de instrumentos eletrônicos, quando o que deseja era o toque, o calor do abraço. 

Fiquei triste porque vou sentir falta de trabalhar com tanta gente querida. Tinha muito amor envolvido e se despedir de quem amamos dói. 

Talvez por isso é que acolhi a dor que sentia com afeto, compreensão e amor. 

Despedir é um ritual para encerrarmos um círculo

Não quero catalogar e classificar as despedidas, mas todos sabemos que algumas são piores que as outras. 

Quando falo em despedidas, a primeira coisa que lembro é de morte. Especificamente da morte de minha mãe.

E isso me faz pensar que às vezes o que dói não é o ato da despedida. É justamente o contrário: é não poder dar adeus, é não poder se despedir.

Esse caso é bem comum quando alguém que amamos morre e não conseguimos dizer adeus. E acredito que nessa pandemia isso tem sido muito comum. 

Despedir faz parte de um ritual, onde deixamos que algo se vá, encerramos um ciclo para começar outro. A morte parece que só se encerra quando cumprimos o ritual da despedida. Independente da religião ou crença, esse ritual nos conforta.

Despedir é triste, mas precisamos dizer adeus, deixar ir. Só então podemos deixar fluir a vida que habita na gente. 

despedida de amigos
Foto de Jan Tinneberg no Unsplash

É preciso dar espaço para outras coisas que surgirão, é preciso aceitar o novo, é preciso aceitar que é hora do velho partir, é preciso aceitar que dói quando se parti. 

É aceitar que uma etapa ou alguém desempenhou o seu papel. 

Despedidas nos lembram que tudo é passageiro

O futuro é uma grande estrada, uma gama de coisas por vir, uma caixa cheia de incertezas. 

Talvez isso nos assuste.

Então precisamos lembrar que nesses momentos em que o medo e a ansiedade nos consome, precisamos mesmo é focar no presente. Estar no momento, respirar fundo e aceitar o que acontece, o que aconteceu e o que acontecerá. 

Eu sei que não é fácil. 

Sei disso porque mesmo tendo consciência que preciso abrir espaço para o novo, que o sonhos precisam ser perseguidos, ainda assim sei que dói uma despedida… 

Então, mesmo que amanhã eu sorria pela decisão de hoje, que saiba que meu futuro precisa dessa despedida, hoje quero me permitir a ficar triste e chorar. 

Preciso disso e aceito isso como parte da jornada que quero começar. 

Hoje apesar das lágrimas e da tristeza, quando encostar a cabeça no travesseiro quero dizer que foi um bom dia, que agradeço e que até estou feliz por ter ficado triste. 

No fundo eu sei que tudo vai passar. 

Subscribe

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit.

 

RECENTES

MaiS LIDAS

Carlos Carreiro

Carlos Carreiro

Related Posts

Primavera
crônicas
Carlos Carreiro

É primavera

Olhei o calendário é percebi que já era setembro. Meio que automático me veio a mente a melhoria da música Primavera com o Tim Maia

Read More »
boletim
Carlos Carreiro

Boletim 23 – II

O boletim 23, edição 2, está saindo com um pequeno atraso, mas como diz o ditado antes tarde do que nunca. Tive alguns contratempos e

Read More »
visita da tristeza
crônicas
Carlos Carreiro

Tristeza

A tristeza anda por perto. Ela deve estar pela vizinhança. Daqui a pouco ela chega por aqui. Eu a senti ontem e a senti hoje

Read More »
boletim
Carlos Carreiro

boletim 1

introdução já faz algum tempo que tenho a ideia e vontade de escrever algo sobre coisas que chamaram a minha atenção durante a semana. alguma

Read More »
Primavera
crônicas
Carlos Carreiro

É primavera

Olhei o calendário é percebi que já era setembro. Meio que automático me veio a mente a melhoria da música Primavera com o Tim Maia

Leia o texto »
visita da tristeza
crônicas
Carlos Carreiro

Tristeza

A tristeza anda por perto. Ela deve estar pela vizinhança. Daqui a pouco ela chega por aqui. Eu a senti ontem e a senti hoje

Leia o texto »
boletim
Carlos Carreiro

boletim 1

introdução já faz algum tempo que tenho a ideia e vontade de escrever algo sobre coisas que chamaram a minha atenção durante a semana. alguma

Leia o texto »
Despedida
crônicas
Carlos Carreiro

Despedida

Despedir talvez seja um dos momentos mais difíceis que precisamos aprender a lidar em nossas vidas.  Não penso apenas nas grandes e dolorosas despedidas, como

Leia o texto »