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Dos dias de gozo

Há tanto trabalho para fazer; tantos textos para serem escritos, revisados e publicados. As horas são poucas, os dias parecem ser mais curtos, mas sei que isso é apenas uma desculpa para não focar no que precisa ser feito: escrever, revisar e reescrever.

Existem pessoas que ficam em pânico com o famigerado bloqueio criativo. Sinceramente, não sou muito adepto deste tipo de sensação. Uma das razões, talvez seja, por não encarar o ato de criar como um trabalho diferente de outra atividade. Sim, criar é mais divertido, mas nem por isso menos trabalhoso.

No caso da escrita, por exemplo, eu raramente enfrento o problemas dos bloqueios criativos. A atividade de escrita é um processo de ações simples: pegar a superfície (papel ou computador), sentar e escrever. A primeira escrita que surge é sempre o rascunho, o embrião de algo que talvez se desenvolva. Eu sou daqueles que acreditam que exista dor no processo de criação, mas para mim essa etapa é mais como um prazer, um gozo.

Colocando de uma outra maneira

Vamos imaginar que o processo de criação seja semelhante ao processo do nascimento de uma criança. O primeiro rascunho é uma explosão; é um gozo, vem tudo junto. Eu não separo o que é bom do que é ruim. Depois vejo se é algo que esta vivo ali, algo para ser cuidado e desenvolvido, daí o trabalho começa é onde eu me perco.

Note, não há problema para criar, mas o trabalho de gestação do texto até o nascimento para o mundo, a publicação é onde eu preciso de mais energia. Não quer dizer que não precise de criatividade nesses processos, mas trata-se mais de um ofício de talhamento. Ver esse texto se desenvolvendo, ganhando força e me desafiando é também encarar medos e fantasmas. E mostrar tudo isso ao mundo é doloroso.

Tudo bem, nem sempre é doloroso, mas lembrando algumas coisas que já escrevi e que gostei a presença de desconforto estava presente. Algumas vezes, passo semanas digerindo como reescrever uma frase, revisar aquelas linhas ou mudar aquela palavra. Não sei explicar, mas nesse processo é como se estivesse cortando um pedaço de mim, da minha alma.
Essa última frase me lembrou algo do Hemingway, o que basicamente resume tudo o que eu falei anteriormente:


“Não há nada para escrever. Tudo o que você precisa fazer é se sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar”

Agora fiquei puto. Precisei de uns cinco parágrafos para expressar o que Hemingway conseguiu fazer em duas frases, mas tudo bem ele era um gênio e eu não. E além disso, eu tenho muitos textos para revisar, escrever e hoje estou mais para o gozo, mais para uma desculpa do que para o trabalho.