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Nem toda merda é uma bosta

Se você esta se sentindo um merda, lembre-se: há merdas e bostas. O texto é basicamente sobre merda.

(i) – introdução ao tema

Não pesquisei, mas certamente o assunto (merda, se você não entendeu) não é novo na literatura.

De memória, lembro de um livro do Rubem Fonseca (Secreções, Excreções e Desatinos). Além disso, há no conjunto de sua obra a obra dele, do autor, tem diversas referências sobre merdas, fezes e excreções.

Outro que literalmente fez de suas vezes literatura, foi o Marques de Sade. Dizem que alguns de seus versos foram escritos com suas próprias fezes. É bem provável que não seja verdade, mas a imagem é, no mínimo, impactante.

No entanto, acho que ninguém personalizou tanto a questão de merda, quanto Charles Bukowski.

Ele foi um merda, em um certo sentido, ou em todos.

(ii) – a merda como sinônimo de fracasso

Todo mundo sabe o que é merda, mesmo assim vou tentar explicar.

Merda é algo que não presta mais; algo recente, que foi descartado pelo corpo depois de ter extraído todos os nutrientes necessários.

É tão descartável, tão imprestável que nosso corpo consegue guardar toda aquela porcaria de comida processada, açúcar e gordura. Consegue absorver até veneno, mas não a merda.

A merda é a coisa mais desprezível, descartada; menos amada, menos querida que existe. Ela é basicamente o resultado de tudo que não presta.

E não é difícil usá-la como um sinônimo de fracasso.

É nesse sentido que o autor de Notas de um velho safado se encaixa nesse texto. Ele era alcoólatra, viciado em jogo e sabe-se lá o que mais… Ah sim, escritor e poeta.

Para falar de fracasso, o Sr. Charles é um bom começo. Talvez, até uma referência.

(iii) – estudo de caso: Charles Bukowski

Se fosse escrever uma biografia do poeta, diria que ele tinha sido cagado ao invés de parido. Ou simplesmente, uma merda que saiu pelo lugar errado.

Bukowski não teve uma infância boa, a adolescência não foi melhor e a vida adulta foi uma merda. Com tantos fracassos, ele lidou com as coisas da melhor jeito que conseguia, bebendo e apostando.

Basicamente, a maneira que ele achou para viver foi por meio dos vícios. Por isso, eu o considero com um doutor, um especialista em merda, em fracassos. Não há maneira de se sentir mais merda do que ser um escritor, alcoólatra, com um emprego de merda e num mundo em que você não se encaixa.

Penso que ele só se mantinha vivo graças ao álcool, às apostas e à literatura.

A figura de Bukowski é de um cara a não ser seguido: não era rico, não tinha o que ensinar, não tinha família, não paz de espírito, certamente não.

E ele foi visto como um fracassado por muito tempo. Ele sempre se sentiu um fracasso. O único fato de sucesso foi ter publicado e vendido milhões, mas isso não o fez parar de beber, apostar ou escrever.

Mas as coisas mudaram…

(iv) – até as merdas podem evoluir

Dizem que um ingrediente fundamental no processo criativo é a dor. Você precisa se fuder muito para criar algo que preste.

No caso de Bukowski, o fato dele se passar muito trabalho foi algo bom, pois o que ele mais queria era ser escritor.

Esse “querer”, objetivo de vida, até pode ser supervalorizado por algum coach ou guru. Algo do tipo, acreditou no sonho de ser escritor e finalmente conseguiu. O mais provável, no entanto, é que ele não servisse pra mais nada mesmo e não suportaria outro tipo de trabalho.

Esse desejo de escrever, essa necessidade fez com que ele transformasse todo o abandono, toda a perda, toda a dor que um dia sentiu em palavras. Não em belas palavras, com uma estética que encantasse a todos, como a poesia de um Rimbaud ou de um Pessoa. O estilo de Bukowski era bem diferente.

Acho que no fundo, Charles usava a sua escrita para xingar o mundo. Devolveu ao mundo uma realidade sóbria, honesta e franca sobre o que pensava, sobre o que sentia e sobre quem era.

Ele pegou toda a merda de vida que tinha e se assumiu como um fracassado. E estava bem com isso. E mando todo mundo se fuder.

Acredito que é aí que a mágica acontece, quando toda aquela dor, aquela vida de merda acumulada, se transforma em bosta. Ela fede igual, mas começam a surgir moscas. E então, ela começa despertar o interesse. Uma bosta serve de adubo, mas precisa de tempo.

Bukowski nutriu a terra com todo o adubo (bosta) que tinha e semeou literatura.

Acho que ele percebeu isso logo no início, que era tão merda como pessoa, com um emprego de merda, com uma vida de merda, com um sonho merda que só conseguiria escrever se se assumisse e olhasse para tudo com honestidade.

(v) – finalmente as coisas mudaram…

Então finalmente o grande dia sonhado chegou… Recebeu uma proposta para escrever. Largou o emprego que odiava e podia se dedicar a literatura.

Com a publicação de seus textos e com algum dinheiro, Bukowski finalmente deixaria de ser um fracassado.

Só que não….

Ele continuou sendo o mesmo cara que bebia, apostava e escrevia. Com a diferença de que não tinha um emprego de merda e que tinha mais dinheiro para beber, apostar e ficar escrevendo.

Se você procura alguma moral, ensinamento ou motivação nesse texto, talvez você tenha algum problema. Mas não quero ofender caso você seja novo por aqui.

Então vou fazer um resumo para facilitar:

1) Até as merdas podem mudar, então acredite você também pode;

2) Nem toda merda é desnecessária. Algumas viram bosta, por exemplo, e se transforam em adubo. Nutrem o solo para os pastos crescerem; para que se transforme em comida para os bois.

2) Assuma quem você é, afinal não existe merda pior do que negar a si mesmo.

Um dia de merda para todos…

Tchau!