Por que criei esse blog?

Des-con-for-to. Desconforto é a primeira palavra que vem a minha mente para explicar por que criei esse blog. É a faísca de uma chama.

É um desconforto de ver tanta coisa errada, de achar que o mundo não é o lugar que eu gostaria que fosse. É também, de não achar o meu lugar. É um desconforto de estar vivo, de ver tanta dor no outro e de sentir tanta dor; é de pensar tanto e de se achar tão impotente em relação a tudo.

É um desconforto de escrever, mas não na escrita, não no ato da palavra em si. O desconforto no ato da escrita é o de não sentir o sentido do texto vivo. É um desconforto do texto, de vê-lo preso, dentro de um arquivo ou dentro de uma gaveta.

É entender o desconforto de ser preso. E esse desconforto de sentir-se preso, prisioneiro eu entendo. Acho que de alguma maneira todos nós entendemos.

O peso que carregamos

James Forbes

O ser humano tem esse conjunto de valores que foram forjados ao longo dos anos, juntamente com uma quantidade de medos e preconceitos. Vamos adquirindo e guardando tudo dentro de uma mochila.

À medida que os anos passam, colocamos mais medos, preconceitos e valores dentro desta mochila. Até que ela começa a pesar. Porém, continuamos a enche-la e acreditamos que as coisas que guardamos são verdades imutáveis.

Tantas verdades que pesam. E daí vem o desconforto, mas continuamos. Continuamos até que o peso é tanto que não conseguimos mais andar. Ao invés de largamos o peso e continuarmos, a maioria de nós apenas para.

Interrompemos a nossa jornada e ficamos a beira da estrada de nossas vidas, estagnados. De repente, estamos presos aos nossos valores, aos nossos medos e preconceitos. As nossas verdades guardadas em uma mochila se transformam em nossa própria prisão.

Uma prisão que nos impede de ver um mundo diferente, de apreciá-lo. De ver sentido nas coisas novamente. Já não é possível ver a maravilha do mundo, sentir o vento, os cheiros, odores. Saborear a fruta fresca. De dar risadas com nossos amigos.

Mas há um temor maior do que aqueles que guardamos em nossa mochila, é o medo de abri-la e soltar nossos medos, rever nossos preconceitos e valores.

Voltando a ser leve

reflexão
Josh Adamski

Para nos vermos livre disso tudo precisamos em algum momento abrir essa mochila. Precisamos rever essas verdades, precisamos esvaziar-se das coisas que já não são mais importantes.

Cada um precisa encontrar o seu próprio caminho para tornar-se leve e livre novamente. O meu ato de abrir essa mochila começa pelo ato da escrita.

Escrever pode ser um processo doloroso, temeroso, agonizante. No entanto, para mim, é também essencial e libertador. É por meio dele que busco essa liberdade. É o meu caminho de encarar esses valores, esses medos e preconceitos que estão dentro de mim. Preciso esvaziar-me de tudo isso para continuar.

Mas não se trata de um busca para curar-me desse desconforto. É uma busca sim, mas para entendê-lo para lhe dar sentido. É uma busca para dar sentido as coisas.

Simplesmente, uma busca pelo sentido.

Dos textos deste blog

por que criei esse blog
rawpixel.com

Como trilhar esse caminho, como construir os textos ou selecioná-los para que tenham vida? Não sei. Nem sei se é só de desconforto e sentido, talvez se trate de esperança. A única certeza é que tenho muitas dúvidas e muitas coisas que preciso dar sentido a elas.

Por isso não me prendo a certezas. E sinto-me confiante na dúvida ao lembrar das palavras de Caio Fernando Abreu:

“Eu simplesmente não sabia ao certo o que queria dizer ou contar. Para saber, foi preciso aceitar escrevê-lo, meio às cegas, correndo todos os riscos”

Para buscar o sentido, preciso também correr alguns riscos, preciso abrir essa mochila, compartilhar essas ideias e esperar que elas encontrem conforto ou desconforto na leitura de alguém.

Talvez, tenha sido o desconforto que me trouxe aqui, mas espero que seja a esperança que me faça continuar. A esperança de um dia olhar para o mundo e ver as coisas fazerem sentido. Poder caminhar pelas ruas e não sentir culpado porque a criança que pede dinheiro não está mais lá. Esta na escola ou brincando com outras crianças.

Não tenho a pretensão de conseguir mudar o mundo sozinho, nem mesmo acho que teria alguma ideia por onde começar, mas tenho a esperança que o mundo mude e espero encontrar um meio para contribuir com essa mudança.

Talvez seja por meio da escrita. Afinal, acredito nessa força que o texto tem, desse poder mágico, que se inicia quando alguém escreve, mas só se consolida quando alguém lê.

Foi com o desconforto que comecei a escrever esse texto para explicar por que criei esse blog, mas isso foi apenas uma faísca que talvez ganhe força e cresça. E é com a esperança de ver essa faísca se transformar em chama viva que finalizo.

 

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