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Prelúdio de Natal

Era um final de tarde, o dia se despedia e o sol avermelhado iluminava o espaço e deixado tudo mais belo e encantador. Estava tudo tão calmo e tranquilo, que ele mal percebeu quando a xícara escorregou-lhe pelas mãos. Seria um prelúdio de natal?

O objeto dividiu-se em pedaços, resultado do atrito com o chão. O barulho fez com que despertasse do estado de tranquilo em que estava. Ao ver o resto do líquido e a xícara em pedaços, não deve dúvidas. Algo de ruim estava para acontecer.

Pegou o celular e verificou a data. Era isso, as festas de final de ano se aproximavam.

Sim, era um prelúdio de natal

 

Ficou abatido. Tinha se empenhado tanto esse ano para manter-se ocupado durante todo o mês de dezembro. Criara um compromisso atrás do outro, inventava ocupações, se voluntariava para ajudar todos que podia. No trabalho fazia horas extras. Esperava que com a agenda cheia, com os compromissos e obrigações esquecesse das festas de final de ano.

Queria passar ileso pelas festividades.

Preludio de Natal - árvore caída
Foto de Joanna Kosinska no Unsplash

Todo o ano era a mesma coisa: especial de natal, especial do Roberto Carlos, show da virada. Não aguentava mais ver aqueles programas.

Imaginava quem conseguia assistir ano após ano os mesmos programas, os mesmo especiais de natal e ano novo; perguntava-se se alguém assistia a missa do galo.

Não se conformava.

O que mais lhe irritava era aquela alegria plástica, como se tudo fosse uma felicidade de verdade. Duvidava. Sempre duvidara dos feriados, das comemorações. Acima de tudo da TV.

Tentava evitar tudo aquilo… mas sempre acabava diante da televisão, assistindo a mesma programação. Um programa qualquer com emoção barata e empolgação forçada. Às vezes até chorava, menos pelo programa e mais pela dura realidade que não conseguia mudar.

Mas nesse ano, ele tinha esperança… havia algo novo, surpreendente, que mudaria a vida dele e todos os finais de anos seguintes.

Tinha descoberto um site que passava vídeos e seriados. Tudo seria perfeito, nada de prelúdio de natal, só precisava que desta vez, a internet funcionasse.

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Da escrita à morte I

Quando os médicos lhe ordenaram manter um diário atualizado de suas memórias e emoções, não se irritou. Ele gostava do exercício de escrever, sempre gostou.

Ver as letras surgindo na tela era o que lhe acalmava sempre, mas não naquele dia. Escrevera o seguinte em seu diário.

“Pela primeira vez, desde que comecei esse diário é que me sinto mal depois do exercício. Isso me assusta. Ver as letras surgindo na tela era o que me acalmavam e hoje não. Elas são indiferentes – porcaria – não sou eu, é o padrasto que grita na cozinha.

Eu apenas me irrito com a incompetência dele. Com a minha própria incompetência. Fui educado assim: a chamar os outros de imprestáveis.

Lembro que ele me ensinou assim, esse padastro, que assumiu o lugar de meu pai. Quando era criança, cada vez que eu fazia algo, ou tentava fazer, ele me dizia que eu não sabia fazer nada. A mãe, tentava me defender e às vezes até me elogiava, mas não era muito diferente. Ela também, sempre que podia dizia que a culpa era minha.”

Naquele dia resolveu tudo: matou os dois. Provou a eles que ambos estavam errados. E depois ainda escreveu:

“Matei, bem matado. Meu pai-padastro sorria, finalmente havia feito algo certo, minha mãe não. Ela estava triste, percebera que ela era a culpada, que aquele era o seu julgamento.

Eu estava feliz, sentia-me livre, finalmente.”

Havia se libertado. Não tinha mais correntes ou cordões lhe aprisionando a alma ou o espirito. Não precisava mais de médico. Estava livre.

Deixou os dois no chão, juntos e fui tomar banho.

 

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Das catracas de ônibus

Dia desses, de um sol forte e brilhoso, convidativo para um passeio, resolvi ir até uma praça para ler e respirar ar puro. Circulei pela praça até encontrar um lugar propício para a leitura.

Lembrando-me agora, era o lugar ideal. O gramado era macio e ficava sob a proteção de uma grande árvore, que além de proteger-me do sol, também servia-me de encosto com o seu robusto tronco.

Sei mais delongas, abro o livro  Mar Quente, que trago comigo e continuo a ler de onde, no dia anterior, havia parado. Não avanço muito, poucas páginas depois a leitura é interrompida. Uma frase impede-me de prosseguir.

“pular a roleta para lucrar meia passagem era o convênio com que mantinhamos com os cobradores”

A frase suscita-me memórias antigas, de uma infância, talvez pré-adolescência. Não lembro ao certo, mas aquela frase leva-me ao passado, quando eu tinha 12 ou 13.

Lembro que também fazia o mesmo, quando ia estudar em um cursinho de informática no centro de Porto Alegre. Sempre dávamos um jeito de não pagar a passagem: passando dois na catraca do ônibus pelo custo de um ou passando por baixo da roleta.

Devia ser divertido, pois lembro com alegria e satisfação.

Não era divertido passar por baixo da roleta do ônibus ou o fato de não ter dinheiro para pagar a passagem, mas lembro que com a economia de uma passagem podíamos comprar bolachas recheadas ou refrigerantes.

Em pensar que só tínhamos essa pequeno prazer porque não pagavamos a passagem.

Não sei quando comecei a aceitar ou a acreditar que precisava pagar por tudo. Não entendam que eu esteja incentivando a todos a roubarem. Não se trata disso, mas quando passávamos por baixo, os cobradores aceitavam numa boa. Eu não era o único a ir estudar, outros também iam e mesmo não me achando tão criança, eu ainda era uma criança.

Naquele tempo, não era errado ou condenável não pagar passagem, ou pelo menos não da maneira como é hoje. Para aqueles que viviam na periferia era quase que necessário passar por baixo da catraca para poder conhecer o centro cidade. Havia um entendimento de todos. Sabíamos que em poucos anos também pagaríamos pelo transporte. Acho até que podíamos dizer que era um rito de passagem.

Pular catraca de ônibus é crime

 

Fui crescendo e assistindo um movimento diverso dessa formação de ser humano e de caráter, mas principalmente na mudança que se tornou a relação com o transporte público.

De repente, o sistema de transporte público passou a impor regras. O ato inocente, de passar por baixo da roleta, se tornou um comportamento marginal, criminoso. Estudantes e idosos passaram a ser obrigados a terem identificação e registro para usufruirem de benefícios do transporte público.

pular catraca de ônibus é crime
Créditos: Fortalbus

Hoje, já não basta ser criança, tem que ter a carteira; não basta ser velho, os cabelos brancos, a pele enrugada não vale nada sem um papel que comprove que todas aquelas marcas do tempo são realmente marcas do tempo.

Nós forçaram a aceitar um discurso contra nós mesmos. Aqueles que não pagam passagens não podem andar de ônibus; se o outro não tem dinheiro não é problema meu; por que eu deveria pagar pelo problema dos outros?

Acho que nos transformamos ou nos transformaram em fiscalizadores, auditores de uma série de normas que não vem, não enxergam mais o cidadão. Quando olhamos vemos apenas um marginal que não paga passagem. Perdemos aquele nosso olhar solidário, a capacidade de enxergar um ser humano, naquele que não paga passagem.

Penso que se hoje, tentasse passar por baixo da roleta para guardar dinheiro pra merenda, eu seria tratado com cascudos e xingões; na escola, seria perseguido pelos meus colegas por não ter dinheiro nem para a passagem.

Os adultos deixariam de ver em mim uma criança que quer ir para escola, mas não tem dinheiro e passariam a me ver como um infrator que quer passar a perna nos outros.

As coisas realmente mudaram, mas que bom que ainda tem um pouco de arte e literatura para nos reavivar as memórias.

Abro novamente o livro de contos do Enio e leio novamente aquela frase, desta vez, pausadamente, tentando compreender tudo o que nela poderia conter:”pular a roleta para lucrar meia passagem era o convênio com que mantinhamos com os cobradores”.

Que outras memórias surgirão das próximas páginas?

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*extraído do conto Crocodilo e Lagartixa, da coletânea Mar Quente, de Enio Roberto.

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Memórias de infância

Você se lembra da sua infância? das brincadeiras de criança, dos seus amigos, das comidas?

Não lembro muito de como era a minha infância, mas tenho algumas memórias. Um pouco, muito pouco do que aconteceu, mas esses dias, trabalhando em um texto, precisei recriar a infância de um personagem e para isso tive que ir fundo em minhas próprias memórias.

Lembro-me pouco, mas lembro que das brincadeiras da rua: pega-pega, esconde-esconde. Não lembro um nome de todas, mas tinha uma espécie de pega-pega que a gente precisava salvar os outros.

Além das brincadeiras lembro dos amigos, havia um grupo, um grupo nosso, acho que eramos seis, três meninos e três meninas. Talvez menos no início e depois a turma foi aumentando, aqueles amigos era uma extensão de família. Era comum que ficassemos mais na casa dos mais próximos, comíamos e por pouco não dormíamos por la. Gosto de lembrar desses meus amigos como irmãos que viviam em casas separadas, afinal eles eram da família.

Havia algo naquela rua que com o passar dos anos eu não consegui encontrar em nenhum outro lugar e por muito tempo até esqueci o nome que era. Tínhamos em nosso pequeno grupo uma comunidade de pessoas, que cuidavam uma das outras.

Acho que graças a esses cuidados é que brincávamos até tarde na rua. E isso era normal. No verão, era normal ficarmos até umas nove ou dez horas da noite na rua. Se meus pais visitasse a vizinha, então podíamos ficar até mais tarde ou se alguém nos visitasse. Torcíamos para que os adultos se divertissem porque isso significava mais tempo para brincarmos.

Sim brincavamos muito, afinal de contas eramos crianças, não tínhamos obrigações além das aulas na escola. Não tínhamos horários para atividades extra currículares.

É parece que lembro mais do que imaginava e nem falei das comidas e das pequenas grandes histórias que construímos enquanto descobríamos o mundo.

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Como escrever mais de 5000 palavras em um dia?

Como escrevi mais de 5000 palavras em um dia?

Hoje é o terceiro do diário do NaNoWriMo de 2017. E foi de longe o dia mais produtivo. Estou muito feliz porque escrevi mais de 5000 palavras em um dia. Para ser exato foram 6295 palavras.

Até ganhei uma medalha de 5000 palavras por isso.

Nanowrimo - medalha de 5000 palavras
Nanowrimo – medalha de 5000 palavras

Quatro dicas para escrever 5000 palavras em um dia

 

Como o número de palavras para atingir o objetivo de 50.000 é alto e o tempo é curto, resolvi planejar um método de trabalho, baseado principalmente nos anos anteriores até revisitei um texto meu sobre o assunto: sete coisas que aprendi sobre escrita ao participar do NaNoWriMo.

1) Defina o tempo para escrever

 

Estabeleci uma séries de sprint para conseguir atingir o objetivo. Um sprint é um termo de uma metodologia para gerenciamento de projetos conhecida com scrum e consiste basicamente em estabelecer um tempo para a execução de atividades.

No meu caso, como já tinha um hábito de escrever em tempos de 40 minutos, estabeleci que faria 6 sprints de 40 minutos no dia de hoje, o que daria mais ou menos 4 horas de escrita.

2) Agende os horários para escrever

 

Além de definir a quantidade de tempo que reservaria para a tarefa estabeleci também os horários que iria trabalhar no projeto. Eu faço isso, pois fica mais fácil reservar um tempo na agenda e posso me organizar melhor durante o dia.

No meu caso, por exemplo, estabeleci que faria três sprints durante o período da manhã, dois seguidos depois do almoço e um último no final do dia. Funcionou e vou repetir a dose.

3) Definia uma meta para escrever

 

Além de definir um tempo para escrever e definir horário, estipulei um número de palavras para chegar no dia. A meta definida foi de 5.300 palavras.

Como ela foi atingida e superada, farei as modificações para os próximos dias.

4) Escreva

 

De nada adiantar você planejar, reservar tempo senão sentar e escrever. Então chegando nos horários, desigue celular, saida da internet, foque e escreva.

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Como vencer o bloqueio criativo? Meu Segundo dia do NaNoWriMo 2017

Não sei se é bloqueio criativo, mas este ano a escrita do NaNoWriMo tem sido mais complicada do que nas edições anteriores.

Eu criei cinco introduções de histórias para este ano, cada uma com cerca de 1.000 palavras em media e desisti de cada uma. Não conseguia avançar depois disso.

Não é que as ideias não fossem boas. Acredito que são boas ideias e espero desenvolve-las, tão longo termine o mês. Porém, não tinha o que chamo de fôlego para um romance, no máximo uma novela com 12.000 ou 15.000 palavras.

Outro problema que presenciei este ano e ainda presencio refere-se aos personages. Percebi que alguns personagens não estavam prontos para nascer. Aprendi que uma personagem prematura necessita de mais cuidado e tempo para ser desenvolvida.  Bem, não disponho nisso no NaNoWriMo.

A única saída é continuar tentando. Como disse ontem, acredito que a inspiração vem do trabalho e uma hora teria a ideia que teria uma personagem pronta para nascer e uma história que rendesse as 50.000 palavras.

Técnica para vencer o bloqueio criativo

Resolvi recomeçar novamente hoje, mas com uma técnica diferente: pensar no final do livro. Eu diria que é um meio termo entre planejar o texto ou deixar ele ir me levando. Lembrei que foi isso que fiz nas edições anteriores e acho que era o que faltava.

Tenho a ideia para o livro chegar até a metade dele e mais alguns capítulos, mas ainda não sei o final, nesse meio tempo vai depender mesmo é dos personagens, das forças que eles vão ganhando de muito trabalho.

Gráfico de produção do Nanowrimo (20/11/2017)
Gráfico de produção do Nanowrimo (20/11/2017)

O número de palavras esta muita aquém do que deveria, mas estou confiante. Ao recomeçar hoje já consegui atingir 2.029 palavras, sei que vou precisar de mais 48.000 e quase 5.000 por dia, mas tenho confiança.

No ano passado tivem dias em que escrevi quase 10.000 palavras por dias. E agora que estou certo de onde quero chegar, o caminho parece claro, só preciso pegar a freeway e acelerar para chegar a tempo.

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Cadê a inspiração? Diário do NaNoWriMo

Seguindo a promessa e os compromissos de escrita da semana do post de ontem, começo hoje a relatar minhas experiência com o NaNoWriMo e meus dilemas com a tal da inspiração.

Eu não acredito em inspiração para mim ela não é uma musa que surge do nada. Acredito que ela é uma musa a ser conquistada com muito esforço.

Em outras palavras, a inspiração vem é do trabalho.

A ideia não é minha. Ela foi dita ja faz tempo e vem sendo repetida pelo seu criador Charles Watson e seus seguidores.

Já que disse que não creio em inspiração, não vou dizer que ela me faltou hoje e por isso o andamento do NaNoWriMo não evoluiu. Espera chegar ao final do dia com no mínimo 3.000 palavras, mas a realidade foi be diferente.

Escrevi apenas 1.154 palavras.

Nanowrimo - gráfico do dia 20
Gráfico de produção do Nanowrimo (20/11/2017)

Faltou inspiração?

 

Eu adoraria dizer que faltou inspiração para escrever, mas isso é uma grande mentira. Pelo menos para mim. O que falou foi foco e trabalho. Principalmente o segundo.

Lembro que em outras edições do NaNoWriMo, quando começava a escrever e era transportado para um outro mundo, no qual eu não existia, apenas os personagens e o seus problemas. Este ano não tenho conseguido esse envolvimento com a trama ou com as personagens.

Talvez seja isso o que muitos escritores chamam de bloqueio criativo. Mesmo passando por esse dilema ainda estou reticente em crer que exista algo como isso.

Acho que o mesmo pensamento da inspiração também vale para o bloqueio criativo. Trabalhar é a resposta. Parece que para resolver um problema precisa comecar com outro. E acredito que seja isso mesmo e é o que espero testar e provar nos próximos dias.

Que com um trabalho focado, surgem ideias melhores e o que chamamos de inspiração surge diante de nós, mas não como uma aparição do nada, mas sim como uma conquista merecida.

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Compromissos de escrita da semana

Estou ciente que este espaço (o blog)  necessita de uma atualização mais frequente.  Pensando nisso vim até aqui,  assumir dois compromissos de escrita esta semana.

Esses compromissos são para amenizar a falta de textos. Mas não pensem que não ando escrevendo. Tenho escrito e reescrito bastante, prometo contar os detalhes ainda esta semana. Tenho falhado mesmo é nas postagens, nas publicações, por isso vim aqui me comprometer com vocês.

Pensando melhor. Talvez os dois compromissos de escrita da semana sejam na realidade, um compromisso e uma promessa.

Compromisso de escrita 1: NaNoWriMo 2017

 

A primeira promessa ou compromisso é o de concluir o desafio do NaNoWriMo 2017.  NaNoWriMo é um jornada anual em que escritores e aspirantes são desafiados a escrever um livro (50.000 palavras) em 30 dias.

Eu começei a escrever o texto deste ano, mas parei. Já havia escrito umas 1500 palavras quando parei. Percebi que não era a história que queria contar. Então voltei e comecei a escrever outra, e novamente não era a história que eu queria.

Faz mais de uma semana que estou planejando capítulos e ideias sobre uma nova história para esse ano. Mas sabe de uma coisa: eacho que não sou do tipo de escritor que planeja. Decidi que vou deixar a história ser contada até por que estou sem tempo.

Esse ano o desafio será maior, pois, ao invés, de ter 30 dias para escrever 50.000 palavras vou ter apenas 11. É isso aí, de hoje até o final de novembro. Aceitei o desafio e é por isso que vim que registrar no blog. Vejam o gráfico deste ano:

Nanowrimo - gráfico do dia 19
Gráfico de produção do Nanowrimo (19/11/2017)

É eu sei que o desafio é grande, mas vou escrever. Se eu falhar não será por falta de tentativa, por este motivo deixo 

Dois compromissos de escrita?

 

Eram dois compromissos, mas esse segundo tem mais cara de promessa: vou prometer atualizar o blog diariamente esta semana.

Há uma série de postagems a serem publicados, que eu chamo em in media res. Eu chamo assim porque serão textos postados nas datas em que escrevi as notas iniciais. Com isso em mente, é bem provável que de amanhã até o final de novembro, tenham alguns textoa simultâneos sendo publicados por aqui.

Com esses textos prontos ou não, quero me comprometer em atualizar diariamente para compartilhar com todos o andamento do desafio do NaNoWriMo.

E para não perder nenhuma atualização do meus compromissos de escrita da semana, que tal se inscrever na newsletter do blog?

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Uma reflexão sobre o encerramento da exposição QueerMuseu em Porto Alegre

Escrevo essas linhas para expressar o meu descontentamento com a atitude do Santander Cultural, mas também para refletir sobre o que significa o encerramento prévio de uma exposição de arte.

Há três semanas, visitei uma exposição no Santander Cultural: a Queermuseu – Cartografias da diferença na América Latina. A amostra apresentava mais de 270 obras do século XX até os nossos dias. Era um diálogo aberto com a diversidade de gênero, consequentemente estabelece um confronto entre valores convencionais de sexualidade e religião.

A exibição segue exemplos de outras exposições associadas ao termo Queer, o qual já ocorre em cidades europeias, como Berlim e Londres.

Acredito que tenha sido a primeira vez que um tipo de exposição desse porte e com esse recorte é feito na América Latinas. Também, penso que seja também a primeira vez que uma instituição encerra por covardia de manter um diálogo aberto. Não podemos negar o nosso inéditismo. 

A notícia de encerramento da exposição

Neste domingo, 10 de setembro, o Santander Cultural comunicou um pedido de desculpas e o encerramento da exposição.

O argumento principal foram as críticas que a instituição recebeu por causa da exposição. Assim que li a nota, questionei-me se realmente eram crítiacas ou, se tratava de um puro descontentamento com o que algumas pessoas viram na exposição.

Penso que, mesmo com todo o avanço que temos às vezes precisamos nos voltar ao passado e ver se realmente aprendemos aquilo que deveríamos ter aprendido. Lembro de um texto do Machado de Assis no qual ele refletia sobre o ideal do crítico. Ele dizia que para fazer uma crítica “é preciso ter alguma coisa a mais do que o simples desejo de falar a multidão”.

Li os comentários no Facebook sobre a exposição. E as ditas críticas, não passavam de reclamações de quem se viu incomodado pelas imagens expostas, baseadas apenas no simples desejo de falar a multidão. Parece que o ator de Dom Casmurro ainda não perdeu o seu brilho.

A promoção de um debate não se dá em portas fechadas

Em nota, a instituição expressou que busca promover o debate. A atitude, no entanto, mostra o contrário. Encerrar a exposição baseado no argumento de que algumas pessoas não gostaram mostram apenas que estamos muito distante do que uma vez foi chamado de debate. E não me refiro apenas ao Santander, nós como como sociedade não conseguirmos promover um debate racional sobre qualquer assunto.

Talvez, a verdade é que não vivemos em uma democracia. Ao contrário da ditadura da maioria, estamos subjugados a opinião de poucos que influenciam e que podem encerrar uma exposição que promovia o diálogo. Uma exposição que buscava a reflexão sobre questões tão presentes. Questões que ao poucos saem das sombras das vidas privadas e chegam ao conhecimento público.

Enxergo esse ato de encerramento como uma covardia. Uma prova da fragilidade dos dias em que vivemos. Se o problema, fosse o tema da instituição ou a agressividade das imagens, então errou o museu ao permitir que ela fosse aberta. Não acredito que os curadores tenham o poder de obrigar instituições a abrirem seus espaços.

Se errou ao abrir, erro maior foi o de encerrar, da maneira como foi feita. Não acredito que os reais motivos tenham sido as reclamações das pessoas, não vi nenhum movimento de abaixo assinado ou algo maior que justificasse isso.

Parece-me mais a influência de poucas pessoas ou de algumas instituições que foram ofendidas pela abertura do diálogo. Afinal algumas imagens questionavam sim símbolos e crenças convencionais. Convencionais, mas não os únicos símbolos de nossa cultura.

O caso da Fonte de Duchamp

Eu fico pensando naquele famoso caso da Fonte de Duchamp. Então ele também seria banido de um museu porque a direção se vira ofendida. E quase o foi, exceto que quando o diretor soube que a obra era de Duchamp, mudou de ideia. O artista já tinha culhões aquela altura.

Fonte - Marcel Duchamp
Fontaine réplica de Duchamp Musee Maillol, Paris, France. Wikipedia

Quando impedimos uma expressão artística de circular, apenas demonstramos a visão estreita e míope que temos. Não percebemos o que esta em jogo. Duchamp provocou uma reflexão em relação as artes para que pudéssemos avançar, mas questionou também o próprio poder que o museu tem em dizer o que podemos ou não ver. Talvez, seja necessário um outro Duchamp em nossos tempos.

A exposição QUEERMUSEU dialogava com conceitos e modelos de pensamento que precisam ser questionados para que possamos refletir a respeito e aprender com isso. E principalmente evoluir como seres humanos.

Se engana quem pensa que trata-se apenas de uma afronta a símbolos. A questão não é apenas de fé ou de ideologia. É uma questão de política. Trata-se da inclusão de todas as pessoas que ficaram de fora do diálogo por séculos.

Uma exposição não deve apenas provocar reflexões positivas

 

Uma dos argumentos para o encerramento é que a exposição não provocava reflexões positivas. Eu pergunto: em que sentido o Museu do Holocausto em Berlim promove uma reflexão positiva? ou os campos de extermínio de Auschwitz, na Polônia?

Esse dois locais não trazem reflexões positivas. Trazem vergonha ao pensar que como seres humanos somos capazes de cometermos tanta maldade e crueldade. Mas eles tem o seu papel. É importante, talvez fundamental lembrar dessas atrocidades, pois apenas mantendo vivas essas memórias é que conseguiremos evitar que elas aconteçam novamente.

Eu gosto de pensar que uma característica que todo ser humano tem é a capacidade de pensar. No entanto, me parece que às vezes esquecemos disso. Precisamos ser lembrados que podemos pensar, ainda mais em tempos como esses em que as injustiças estão cada vez mais presentes. Pensar e refletir sobre as coisas que estão acontecendo, independente de ideologias ou de uma fundamentalismo primitivo.

 

Uma exposição que chocou, que provocou o pensamento não é uma exposição que ofende. É uma exposição que mostra que o trabalho de curadores e de artistas foi alcançado.

Segundo muitos pensadores e filósofos, uma das funções da arte para a sociedade é justamente provocar. É esta a força que arte carrega em si: de nos provocar, de nos refletir sobre quem somos.

E, se algumas pessoas forem ofendidas no processo que bom. É sinal de que a arte os tocou, que o trabalho dos artistas está muito bom, que a sociedade deve avançar. E que um dia poderemos melhorar.

Cancelar uma exposição com base em críticas e não levar em consideração o todo não é apenas um ato desrespeito contra aqueles que apreciam a arte ou aqueles que trabalharam. É uma afronta ao pouco que nos sobrou de um estado democrático. É a prova concreta que não avançamos em questões de gêneros e de igualdade social.

Ainda vivemos sobre as sombras, cada vez mais presentes da tríade: tradição, família e propriedade. Algo que já deveríamos ter superado a anos. Já sabemos que o catolicismo não é a única religião do país, nem mesmo é a principal, mas há muita gente insistindo nisso. E mesmo que fosse, questionar o poder de uma instituição não é questionar a fé de quem acredita em deus.

O encerramento de uma exposição por tais motivos é negar a nossa oportunidade de poder dialogar a respeito. Sinto-me como se estivesse no jardim de infância e um colega meu contou à professora que eu disse nome feio. Estou de castigo por ter dito nome feio. Estamos todos de castigo porque dizemos um palavrão chamado diálogo.

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Living on one dollar – Um pouco da miséria no mundo

Você já se imaginou vivendo com menos de um dólar por dia? Saiba que há milhões de pessoas que vivem nessa realidade. Living on one dollar é um documentário sobre o cotidiano de algumas dessas pessoas.

O critério para considerar pobres extremos e pobres moderado é feito com base em métrica que estabelece o ganho diário. Quem ganha até um dólar por dia esta na categoria de pobreza extrema. Para aqueles que ganham entre um e dois dólares são classificados como pobre moderado.

No Brasil é considerado a linha de pobreza aqueles que vivem com uma renda familiar per capita de até R$ 230,00 por mês. Segundo os dados da FGV Social, em 2015 cerca de 11,2% dos brasileiros, em números absolutos, são de 22 milhões de pessoas vivem nessa realidade.

As estimativas para 2017 não são nem um pouco favoráveis. O último relatório divulgado pelo Banco Mundial mostra que o Brasil terá mais 3,6 milhões de novos pobres.

No mundo estima-se que mais de 1,1 bilhão de pessoas vivam em condições de miséria extrema. Além do fato de ganharem U$ 1 ou menos por dias, as pessoas que vivem nessas condições não tem recursos básicos, como água potável.

Uma pergunta que me ocorre é: como essas pessoas conseguem sobreviver?

Bem, essa também era a dúvida de dois jovens americanos. E para responder a essa pergunta eles decidiram fazer o documentário Living on one dollar.

Living on one dollar – A proposta do documentário

Living on One Dollar
Divulgação: Living on One Dollar

Chris e Zack são dois estudantes americanos que se perguntavam como as pessoas conseguiam viver com U$ dólar por dia. Porém, o objetivo não era entender com base em dados e artigos acadêmicos. Eles queria ver de perto a realidade dessas pessoas e sentir como era viver nessa realidade.

Os dois estudantes convenceram mais dois amigos para filmarem as entrevistas e fazerem um documentário a respeito. One dollar living mostra a experiência e a convivência que eles tiveram vivendo por oito semanas em Peña, na Guatemala, com um dólar por dia cada.

A produção é simples, mas compensa com uma boa edição. E, consegue fazer com que o telespectador se coloque no lugar de quem esta vivendo nessas condições. Apresenta a realidade dos jovens, ao longo dessas semanas e um pouco da vidas das pessoas da comunidade de Peña.

Vamos conhecendo algumas histórias dessas pessoas, e da força que elas tem. Dos seus sonhos, sonhos em mudar de vida, de estudar, de ter uma vida melhor.

Não há uma fotografia que embeleze a miséria e a pobreza. Se há alguma beleza no relato, essa beleza é das próprias pessoas e de suas vidas. Não espere encontrar uma estética da miséria, como muitos fotógrafos fazem. Não há nada de belo na situação em que elas vivem, mas há algo especial nessas histórias. Na força dessas pessoas, que mesmo nessas condições lutam e cultivam a esperança.

O documentário é curto e não traz muitos dados econômicos. Seria bem mais ilustrativo e informativo trazer esses números para entendermos a dimensão do problema. E também apresentar iniciativas que estão sendo feitas ao redor do mundo para minimizar ou resolver o problema da miséria.

Uma solução possível

A respeito de soluções, há apenas uma menção sobre iniciativas em inserir dinheiro em comunidades pequenas. Sem citar fontes, o filme informa que tais soluções são paliativas e não resolve o problema em si. Aliás, não parece haver uma solução, uma única solução.

O caminho aponta para uma solução sustentável que permitia a comunidade crescer em conjunto. Talvez, em casos como o de Peña, inserir dinheiro em uma comunidade local para que eles mesmo produzam possa trazer resultado a longo prazo.

Esse é dos caminhos encontrados para que isso seja possível e apresentados em Living on one dollar: o acesso a crédito. Mas não em um banco tradicional, no qual é exigido uma série de documentos. Muitos desses documentos nem são possíveis. Como alguém poderá comprovar rendar sem ter uma renda formal ou como apresentar uma conta de luz ou água se não tem esses serviços em suas casas.

Living on One Dollar - Rosa
Rosa – Com um empréstimo de $200, pode iniciar seu próprio negócio e voltar a estudar

A alternativa são os bancos de microcréditos, nos quais as exigências são menores e permitem o acesso ao crédito. E um valor de empréstimo de U$ 200,00 pode gerar a criação de um negócio e o aumento de renda para essas pessoas. É uma oportunidade para que se possa gerar rendar a partir do empréstimo e melhorar suas vidas.

A pobreza é o problema e não os pobres

Muitas ideias envolvendo a pobreza se propagam ao pensar que o pobre não quer trabalhar ou que não tem força de vontade. Ou que se quisesse mudar de vida poderia. A realidade de muitas pessoas é bem diferente. Embora queiram mudar de vida, simplesmente não tem acesso as oportunidades que deveriam ter.

No Brasil, por exemplo, o polêmico Bolsa Família que tinha ajudado a diminuir o índice de pobreza até 2010. Mesmo sendo visto como um programa assistencialista vinha melhorando nossos números.

Ao deparar com a realidade de miséria de milhões de brasileiros, eu não tenho o sentimento de injustiça pela ajuda que essas pessoas ganham do governo. É uma maneira paliativa, que não resolve a situação, mas colabora para que isso seja possível. É um longo caminho a ser construído.

Se por um lado, Living on one dollar peca em termos de pesquisa prévia, ele tem o mérito de nos apresentar uma experimentação etnográfica. E faz um bom trabalho, em nos levar a conhecer um pouco da realidade de pessoas que vivem com tão pouco.