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O apanhador no campo de centeio: algumas linhas sobre Holden

Eu queria escrever uma resenha sobre o Apanhador no campo de centeio e apresentar aspectos positivos e negativos do livro. Porém fui levado pela emoção, o texto ganhou vida e se transformou em outra coisa.

Talvez seja o tipo resenha que o jornalismo cultural chama de impressão da obra. Não sei o nome certo, tanto importa.

A imagem que tenho d’O apanhador no campo de centeio é o daquele raio de sol, que surge após uma chuva forte e que nos encanta, daquele brilho que traz junto consigo, luz e esperança.

Há muitos anos, ouvi em uma palestra um escritor sugerir ler o livro como porta de entrada para a literatura. Ele dizia que se tratava de uma obra que havia tinha cativado muitos leitores. Não sei por qual motivo, mas por muito tempo achei que se tratava de uma obra de um escritor brasileiro. Talvez a referência ao campo. Por pura inocência, achava que não fazia sentido para mim que uma obra em língua estrangeira fizesse com que tanto adolescentes se identificassem com ela.

O apanhador no campo de centeio foi escrito por Jerome David Salinger. Ou apenas J.D. Salinger, como é conhecido. Ele escreveu o livro na década de 50 e desde então tem encantado o público. Em 2005, a Times o inclui em sua lista dos 100 melhores romances da língua inglesa.

O inicio da leitura

O livro ficou na vontade de leitura esquecido com outros tanto títulos. Até que uma amiga escreveu uma resenha sobre a obra. Fiquei muito curioso em ler o texto dela, mas antes queria ler o livro. E foi então que comecei a le-lo.

Admito que ao iniciar a leitura eu não achei muito interessante.

A história narra um final de semana de um adolescente de uma família de classe média, que é expulso da escola por ter rodado na maior parte das disciplinas. Um narrador adolescente que se vê perdido e odeia o mundo. Após 100 páginas lidas, eu ainda não entendi como um livro desses poderia ter encantado tantas pessoas, conversei com outros amigos que o haviam lido e haviam gostado.

Insisti na leitura.

Sobre Holden

Holden é um rapaz perdido e sensível que não se enquadra no mundo em que vive. A sua raiva nasce justamente desse desencontro do mundo a sua volta. Um mundo do qual ele não quer fazer parte. As observações e as suas reflexões em relação a vida, não raramente, rendem boas gargalhadas.

Holden Caulfield
Holden Caulfield por Melissa Hatford

Aos poucos o carinho pelo personagem narrador, o Holden, foi crescendo. A perspectiva da leitura também. A arrogância com que ele falava dos outros passou a ser vista, com uma ingenuidade em relação as incertezas da vida. Quando percebi, eu já estava sensibilizado pelo mundo dele e como ele encarava as coisas. Talvez tenha começado a lembrar da minha adolescência e das incertezas e “certezas” da época.

Confesso que no início eu o achava entediante, mais por falha minha do que da obra. Percebi que estava acostumado a ler as obras de personagens narradores, dos seus 40 a 60 anos de idade, com reflexões sobre vida e não sobre um adolescente que não vivera quase nada. Não há nada a ser ensinado por Holden, ao mesmo tempo em que há muito para aprender com ele. É contraditório, é humano.

J.D Salinger conseguiu um personagem forte com muita humanidade. Quando me refiro a humanidade quero dizer que parece vivo, com suas contradições e sua maneira de agir. Ele se torna coerente, mesmo quando parece ter aprendido algo, algo que não é dito diretamente, mas é perceptível. Além disso o trabalho com a linguagem, usando gírias e construções da época, dão uma característica marcante do vocabulário, mas sem fazer com que a obra fique marcada.

A típica família americana com uma vida financeira estável é lapidada e construída sem se diga isso diretamente. O autor por meio do personagem nos mostra uma das mais valiosas “regras” da escrita criativa: mostrar a história sem nos contar o que acontece.

Os momentos finais de O apanhador no campo de centeio

campo de centeio
Jonathan M. Hethey

Ao aproximar-se do fim, o questionamento sobre como se resolveria o desfecho começa a ganhar um ritmo de leitura, acelerado por meio da tensão dos últimos acontecimentos e por um final com um toque de surpresa e por que não dizer de grandiosidade.

Ao terminar de ler O apanhador no campo de centeio e refletir sobre o título e sua origem, a qual é explicada no decorrer da obra, foi como se eu atingisse o peso poético da obra, sem que eu conseguisse racionalizar para colocar em palavras. Esse texto é uma tentativa em tentar dividir um pouco os momentos que passei com Holden.

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