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Algumas palavras sobre Descendentes 2

Descendentes 2 segue a sequência do primeiro filme. Mel, filha de Malévola e seus amigos tentam se encaixar em um mundo perfeito, bem diferente de onde vieram.

 

Ao longo dos anos a Disney criou muitos vilões e nos recentes anos tem dado uma perspectiva diferente para eles, como o caso de Malévola e a rainha do gelo. A ideia geral é de que não somos determinados por nossos pais e podemos fazer nossas próprias escolhas.

Mesmo não o primeiro filme tendo muitas falhas, a sequência já esperado. Ao que parece, se trata de uma franquia do canal da Disney a longo prazo. Assim como primeiro, o segundo filme peca em muitas coisas.

É cheio de clichês e de muitos estereótipos e por que não dizer uma ideologia econômica segregada. E por tratar-se de um filme que tem em seu público alvo crianças e adolescentes, o cuidado deveria ser maior para esses detalhes.

Os dois mundos de Descendentes 2

Em Descendentes 2, há dois mundos principais, bem marcados pela fotografia do filme.

Descendentes 2 - O mundo perfeito
Disney Channel/David Bukach

O primeiro deles é o dos príncipes, princesas e todos os personagens bonzinhos dos contos de fadas. No outro é o da ilha, uma espécie de prisão, onde todos os personagens malvados foram condenados a ficar como punição pela sua maldade.

O mundo dos príncipes e princesas é colorido com cores claras, com muita riqueza, onde todos são tratados com respeito. Em contraste, o ambiente da ilha as cores são escuras, a miséria é presente e a sujeira é visível para demonstrar o lugar desagradável onde as pessoas más vivem.

Acontece que os filhos dos vilões também vivem nessa ilha, afastados de educação, da segurança. A ilha é o local onde há o roubo e violência, onde criminosos e pobres vivem sem que haja qualquer distinção entre um e o outro. Se transportarmos a imagem para o mundo real, é como se a favela fosse a ilha e o condomínio de luxo o lugar encantado.

Outro ponto desgostoso do filme é perceber que a única personagem negra de destaque é vilã. Aliás, tirando alguns figurantes, não que não há outra personagem negra no filme.

É triste ver um filme para crianças onde ainda reside a ideia do pobre ser vilão e o rico o bonzinho. Os mocinhos dos filmes vieram desse segundo mundo e tiveram uma chance. E agora, não fazem mais parte do mundo de pobreza, miséria e maldade.

A figura feminina em Descendentes 2

Se por um lado, a questão de negros e pobres é plástica e até racista, Descentes tem o mérito de trazer como protagonistas e antagonistas personagens femininas. Tanto do lado de heróis e de vilões, as meninas é que representam e contam praticamente toda a história. Os meninos no filme tem mais um papel de mentor ou coadjuvantes. Mesmo quando o príncipe vai salvar a princesa, a história é invertida.

Um destaque para a força da figura feminina na trama é a personagem de Dianne Doan, Lonnie, a filha de Mulan. Em determinada cena, ela luta contra a equipe de esgrima da escola, mostrando competência e habilidade, mas não é aceita por ser menina. Ela levanta a bandeira de que o critério não deveria ser pelo gênero, mas pela sua competência. Essa será a verdadeira luta Lonnie no decorrer da trama e no final dependerá de um homem para dizer se ela pode ou não participar da equipe.

descendentes 2_o_mundo_dos_vilões

Há muito para ser tratado sobre esse assunto, mas a mensagem principal é que meninas podem fazer tudo que meninos fazem, desde que os meninos permitam. Não libertação ou mudança alguma em uma mensagem dessas.

Mesmo com papéis menores, a figura masculina ainda é dominante na resolução de problemas, mesmo nos papéis menores. É justamente o que acontece com Lonnie: ela precisa da autorização de um homem para entrar na equipe de esgrima, independente da sua competência e talento.

É um filme feito com o foco no público feminino, mas sem uma inovação nos papéis femininos. As personagens são rasas, plásticas e poderiam ser muito mais trabalhadas, mas ninguém espera uma obra prima, então mesmo com personagens rasas a trama e contada.

Figurinos, coreografia e atuações

O trabalho artístico dos figurinos e dos maquiadores cumpre o seu papel. Mas em alguns momentos fiquem com a impressão de que orçamento do filme não era alto porque poderiam ter um acabamento melhor. Talvez apenas a impressão de que algumas cenas estavam em um ambiente artificial, ora realista ora fantasioso. Embora essa mistura não seja harmoniosa, ela não compromete o filme.

Há no entanto algo que merece destaque em Descendentes 2: as coreografias. Os coreógrafos souberam explorar o talento e a força do elenco. Sofia Carson, a Evie, ganha mais força nessa sequência. Desempenha bem as cenas em que canta, mas a interpretação esta melhor do que na primeira versão.

Um pouco mais sobre os atores

Um ator que gostei de ver em cena é Cameron Boyce, Carlos. Um ator que tem crescido a cada novo com a Disney, seja com ator ou como dançarino. Nas cenas de dança, ele se destaca. Mas arrisco a dizer que Cameron teria muito mais liberdade para trabalhar se estivesse em um palco atuando. Gostaria muito de ver isso.

Dove Cameron, Mal, a protagonista é conhecida do público pelo seriado Liv and Maddie, onde interpreta duas irmãs gêmeas. O trabalho no seriado é melhor do que no filme. Não é uma atuação ruim, mas poderia ser melhor. Parece ser mais um problema de direção do que de atuação. A atriz corre o risco de ficar marcada por uma personagem tão superficial.

Outras atuações que merecem destaque em Descendentes 2 são:

  • China Anne McClain, a Uma, filha de Ursula (a vilã da pequena sereia). China cresce, mas não é uma vilã de verdade. É mais uma força da injustiça e a todo momento espera-se fazer parte de um outro mundo que não aquele da ilha isolada.
  • Thomas Doherty, que interpreta Harry Hook, o filho do capitão gancho, talvez ele devesse ser o verdadeiro vilão da história porque é o mais parece estar a vontade em seguir os passos de seu pai.
  • Não poderia deixar de mencionar a atuação de Dylan Playfair, Gil. É o tipo de vilão atrapalhado que nos garante algumas risadas.

De um modo geral, as falhas não de atuação ou falta de talento dos atores, vejo mais como uma falta de direção apropriada que não souberam ou não puderam trabalhar melhor. Muitos seriados e filmes da Disney são uma espécie de laboratório para desenvolverem talentos.E esse parece ser o caso.

Enfim…

A história tem muitos problemas, mas garante também diversão e entretimento. E esse parece ser o objetivo principal do filme. É um filme para TV que já encantou milhares de pessoas nos Estados Unidos e suas falhas não comprometem.

Porém o seu conteúdo é que assusta. Trabalhar como uma estética de segregação em um momento em que a extrema direita ganha tanta força ao redor do mundo é um ato de irresponsabilidade.

A fantasia é a grande força da marca Disney e não entendo por que não criar um mundo de fantasia, no qual meninos e meninas, brancos e negros, pobres e ricos fossem tratados com mesmo respeito em Descendentes 2. A final é fantasia e pelo menos em sonhos, poderíamos imaginar um mundo mais justo.

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